A partir desta semana, estamos mais perto do ano 2050 que de 2000. A Internet não me deixa esquecer disso. Esta afirmação é, sim, o anúncio de um susto porque, mesmo sem memórias do ano 2000 pela pouca idade que tinha, sei que estive lá. Folheei os álbuns de fotos, ouvi as canções da rádio, li as cartas datadas, assisti às novelas, provei os doces, ouvi as histórias de promessa de fim de mundo fracassado. (Anos depois, vim a viver outras promessas de fim de mundo, também fracassadas. O mundo sempre esteve para acabar).
Sobre o ano 2050 porém, não sabemos. Não sabemos se folhearemos álbuns de fotos que, quem sabe, voltem à tona. Por enquanto, 25 anos antes, nossas memórias se guardam em nuvens, e nos são cobrados valores simbólicos mensais para que não sejam perdidas para sempre. Sobre as cartas datadas… Eu mesma recebi uma última carta vinda na correspondência em 2009, já tardia. Entretanto, é também impossível afirmar. Vai que uma geração porvir veja graça no hábito “vintage” e o transforme em uma nova trend? Quanto às canções, aposto que estaremos, em 2050, ouvindo as mesmas de hoje, como ouvimos hoje as mesmas de 25 anos atrás. É provável, porém, que tenhamos conhecido a derradeira obra de alguns de nossos artistas favoritos. A voz de um poeta é eterna, mas sua pena vai com ele.
Sabemos 25 anos no passado porque nos soa familiar. A vida é, sim, completamente diferente, mas digerimos cada transformação a sua vez. No último ano, porém, as evoluções têm tomado um ritmo frenético que parece nos atropelar. Os programas de Inteligência Artificial têm evoluído violentamente diante de nossos olhos. Há dois anos, quando eu já morava nesta casa com essa exata mesma rotina, ela ainda não era capaz de criar imagens realistas. Agora, cria vídeos que nos confundem. Nas últimas eleições presidenciais, em que a distribuição de notícias falsas e imagens manipuladas alimentava conflitos, ela ainda não era capaz do que é agora. É um alívio, mas só até as próximas eleições.
Como teste, eu peço para a IA escrever um poema. É um texto genérico, cheio de lugares-comuns e imagética pobre. Peço uma prosa narrativa, há elementos desconexos e enredo superficial, mas isso é só por enquanto. Mês que vem, pode ser que se confunda com Drummond, vá saber. E quando isso acontecer, como vamos reconhecer os poetas? Como vou poder provar ao leitor que sou eu mesma falando, e não um algoritmo alimentado por outras vozes? Que estratégia poderei usar para provar que sou eu? Terei um código? Uma palavra senha? Será como tentar ser ouvido debaixo da terra?
E além disso, será que em certo momento o autor será mero acessório na literatura? Será possível se emocionar em palavras ditas por ninguém? A análise do discurso diz que a palavra só é minha enquanto não é dita, e depois de proferida pertence metade a mim, e metade ao meu leitor. Será que vai ser o texto exclusivo do ouvinte, sem contestações? E para os que ainda sentirem a necessidade de escrever, haverá quem os leia? Estaremos, em parte falando sozinhos, e em outra, ouvindo paredes?
Penso sobre isso neste exato momento, porque não sei se meu leitor acredita que esse espiral de pensamentos é justamente típico da mente de uma moça de 27 anos. Precisarei, na poesia, que meu leitor venha pessoalmente comprovar a fila de insetos, o canto do pássaro, a nuvem sobre o jardim sobre a qual fala o poema? Precisarei, como Cristo com São Tomé, encostar o dedo do meu ouvinte dentro de uma ferida aberta para provar que é real?
Aposto que alguma geração ainda por nascer, carente de humanidade, haverá de trazer de volta as cartas. Também, aposto que voltaremos aos saraus, para olhar nos olhos dos poetas para comprovar que essas palavras que me paralisam saem da boca de um outro ser humano, também vulnerável à paralisação por sentimentos despertados. É uma perspectiva otimista.
