Ancorada em Carolina Maria de Jesus, a palavra escrita jamais poderá ser totalmente apagada. Mesmo que o lápis não seja de uma boa qualidade, mesmo que a borracha seja de uma boa qualidade, ali permanecerão marcas registradas e indeléveis da mente humana materializada em palavras. Na folha escrita se perpetuarão os relevos e as pegadas das palavras que por ali, num determinado momento, chegaram. Chegaram para ficar. Mesmo que o papel seja queimado e jogado fora, as suas cinzas adubarão plantas que alimentarão novas mentes a pensar, não o pensamento dos injustos, mas a alimentar sonhos de liberdade e a se proferir vozes insubmissas. Não, essas cinzas não poderão alimentar plantas que alimentem o pensamento único, dogmático, homogêneo. Dessas cinzas nascerão frutos que alimentarão mente que não mente, mentes que não mintam. Homens e mulheres inconformados, desestabilizadores e rebeldes, capazes de propagar os saberes universais. Saberes que uma Europa e homens prepotentes e viciados a sempre ensinar ao mundo e não aprender com ele, deverá levar em conta.
E se as palavras não conseguem mudar o mundo, elas servem no mínimo para contar sobre esse mundo, para denunciá-lo, para fazer pensar sobre ele, para acordar aqueles que pensam que seus podres atos foram esquecidos. E quando as palavras não conseguirem mudar o mundo, elas pelo menos servirão para criar um mundo novo. Um mundo novo e um novo mundo onde aqueles que foram acostumados a sempre a falar, agora sejam obrigados a escutar. E se não quiserem escutar, que engulam seco aquilo que não pode mais ser calado.
E essas palavras que agora escrevo não são destinadas para fazer o homem branco dormir, são palavras escritas para fazê-lo acordar do seu sono dogmático e injusto sobre aqueles que foram terrivelmente violentados por eles. Essas mesmas palavras que agora escrevo se convertem numa escrita performática porque tem som, cor, tamanho, espessura, cheiro e no compasso do coração humano ganham passos lentos, porém firmes e destemidos. Não são palavras de ninar, são palavras escritas para pensar. Pensar um pensamento que incomode.
Por meio da palavra escrita nos damos conta de que a realidade precisa ser ficcionada para poder ser entendida. A palavra escrita é como o sangue do mártir derramado sobre a terra; uma hora qualquer, ele vai germinar. Não que do sangue nasça alguma planta. Mas dos sinais, das lembranças, do cheiro dele ali derramado nascerão outras vozes ainda mais potentes e consistentes.
O destino da terra é germinar. Basta que seja plantada, colocada ou até mesmo jogada uma sementinha ali, e lhe seja acrescentada um pouquinho de água, ar e luz; logo, logo jorrarão plantas, que florescerão, aparecerão frutos e sementes num movimento dialético e infindável.
Assim são as palavras. Ditas exercem um poder, ouvidas deixam marcas indeléveis e escritas assinalam mentes, marcam corações para além da eternidade, porque vamos, mas deixaremos nossos passos fincados no chão da história daqueles com os quais trilhamos caminhos. Nuevos senderos. As mentes sempre abertas a pensar de novo e a repensar o pensado para refazê-lo, metaforicamente são a terra, a água e o ar que fazem nascer e crescer plantas e plantas diversas sobre o chão da história humana.
Assim como as palavras, as pessoas que as escrevem não podem ser apagadas. Eu disse, as pessoas não podem ser apagadas. Não se apaga quem me fez fazer o que agora faço porque a história é consistente. Não pode ser apagado eu que agora escrevo, para que aquilo que agora me faz escrever não mais possa ser repetido com aqueles que tiverem acesso a essas palavras. Mesmo aqueles que não tiverem acesso diretamente a essas palavras escritas não poderão isentar-se dos ecos que elas produzirão para além dos espaços onde forem lidas, proferidas.
Enganou-se quem tentou me apagar, me silenciar, me ignorar. Seu ato foi em vão. Fomentou em mim o desejo e a capacidade profunda de dizer aquilo que gostaria, agora de uma maneira muito mais potente, universal e inapagável: a minha palavra escrita. Que aqueles que foram silenciados aprendam no seu silêncio forçado a pensar de forma mais sólida sobre as violências por eles passadas e procurem denunciá-las por meio da palavra escrita.
A palavra escrita tem tom de transgressão, de denúncia torna-se imperativo em meios as palavras doces, de autoajuda e melosas que encharcam e saturam as mentes humanas. Sim, estamos saturados de palavras que não dizem mais do que o que dizem. Desejo, por fim, que a minha palavra escrita seja no mínimo semelhante a literatura: palavra no seu mais alto nível de significado, que traga novidade e permaneça sendo novidade. Quando o homem tomar consciência do poder que tem a palavra, sobretudo, a palavra escrita, terá, enfim, algo significativo que possa substituir vários tipos de armas, inclusive…
