Toda vez que acordo e saio à rua, é um dia novo. Às vezes, encontro a cidade debaixo de uma estrondosa chuva e me arrependo de ter saído de sapatos brancos. Outras vezes, preciso voltar correndo porque esqueci o protetor solar. Em outras, mais raras, vejo um panapaná imenso, quase infinito, sobrevoando a cidade. Nesses dias, paro de pedir por milagres.
Como é natural das moças da minha idade, carrego comigo uma lua. Às vezes, cheia, sinto como se a maré dançasse junto comigo. E, nesses dias, tenho força para abraçar minhas amigas e gosto de dizer a elas como estão lindas nas cores que vestem. Em outras, minha lua nova acende dores seculares, e o arranhar do meu peito soa como constantes terremotos. Nesses dias, minhas amigas seguram minha mão e lembram que cor bonita tem a minha espaçonave.
Uma delas, até um dia desses, não cozinhava quase nada. Outra não entendia inglês. Uma terceira agora cria um cachorrinho. Outra pintou o cabelo de preto e tem uma tatuagem nova. Não poderia nunca me cansar delas, porque observá-las aprender coisas novas e se tornarem, a cada dia, mais velhas é sempre um espetáculo da vida.
“Nunca se entra duas vezes no mesmo rio”, disse Heráclito, um antigo filósofo grego. Era isso que ele queria dizer: tudo ao nosso redor está em constante transformação. Nunca se abraçará o mesmo amigo duas vezes, porque, amanhã, ele terá conhecido uma nova dor ou alegria, provado um novo gosto, ouvido um novo conselho — e algum desses pequenos acontecimentos o terá transformado para sempre. É também impossível cruzar o mesmo bairro uma segunda vez, visto que ele é povoado de gente, suas casas, seus bichos e seus jardins, tudo se renovando a cada segundo.
As crianças também são temporárias. Um dia, elas não existem mais. Ficam no seu lugar novas versões delas próprias, mais despertas e mais pesadas, quase cem por cento novas. Deixam de perceber alguns pequenos detalhes do cotidiano. Já não se jogam no chão do supermercado para expressar frustrações. Aprendem a pronúncia perfeita das palavras, já não falam sozinhas enquanto brincam, abraçam menos e aprendem coisas demais.
Eu também mudo sempre. Grandiosamente, quando aprendo uma nova língua ou completo uma nova idade. Diariamente, quando as pequenas belezas ao meu redor me transformam. Não sou a mesma depois de ver um grupo de abelhas visitando meu jardim. Não sou a mesma depois de fazer carinho em um filhote. É impossível ser a mesma depois de um passeio de barco, de provar uma receita nova, de ter dengue, de ganhar um perfume, de alimentar lagartixas, de tirar um cochilo de duas horas e sonhar que se passaram três meses, de conhecer um novo poeta, de ser picada por um inseto.
Estou sempre mais velha. A cada semana, leio mais poemas e vivo mais domingos. Sei algo a mais sobre como me alimento. Sei o nome de uma nova planta. Todo dia, estou mais cansada ou mais forte. A cidade nunca cansa de me ver transitar pelas mesmas ruas, porque nem eu nem ela somos as mesmas que ontem. A caneta que diariamente uso nunca cansa da mão que a segura, porque é, a cada dia, mais precisa.
Como as baleias nunca cansam do mesmo oceano, porque ele se transforma constantemente. Ou como o mesmo pássaro continua voltando à nossa casa, porque nosso jardim é sempre novo. Como os cães nunca se saturam de assistir à mesma rua, porque os que passam também estão sempre a falar de novos assuntos. Há, nesse estado constante de transformação, conforto e desespero. Conforto, porque posso prometer a quem amo e a esta cidade que sua companhia nunca vai me entediar. Estarei sempre entretida pela expectativa do que virá amanhã. O desespero mora no apego. O que posso carregar comigo, com segurança, até o fim? Tenho para mim que deve ser a poesia. Por ser alada e fixa, líquida e sólida, abstrata e concreta, minúscula e imensa, ela estará em todo lugar. Torço para que, ao virar uma esquina, eu não perca estes olhos de a perceber.
