Há, ao sul do Atlântico, uma ilha de 207 km² chamada Tristão da Cunha. É contornada por penhascos. Em seu centro, um monte vulcânico se levanta como ruínas de um castelo – sua própria fortaleza. Tristão da Cunha tem esse nome porque assim se chamava o primeiro navegador a avistá-la, um almirante português. Este, porém, foi impedido de atracar na costa porque não pode ver além dos penhascos. Outras expedições posteriores também tentaram ancorar, a maioria falhou.
Os homens que se aproximavam de Tristão da Cunha, mas precisavam dar meia volta em seus barcos exploradores, tinham a imediata visão da neve caindo por sobre a praia. Ao sul do Atlântico, porém, não há neve, e o que viam era milhares de gaivotas indo descansar ao fim do dia. Também, centenas de leões-marinhos estabeleciam sua presença guardiã na costa. Muitos foram mortos pelos exploradores. O mar de Tristão da Cunha é avermelhado de algas, mas o céu, muito azul.
Certas chaves do universo não se entregam de primeira e o traçado da história se desenha, frequentemente, pelas mãos do mistério. Digo isso, também, porque o primeiro morador de Tristão da Cunha viveu lá dois verões. Jonathan Lambert chegou à ilha em 1810, declarou-se dono, a chamou de Island of Refreshment, e hasteou sua bandeira. Sua missão envolvia a exportação de pele de foca e óleo de leão-marinho para as terras do Brasil. Jonathan Lambert morreu engolido pelo mar, num buraco aberto somente para levá-lo. Enquanto isso, a terra engoliu seu baú de tesouro, recheado de saques de navios alheios.
Leio sobre esta ilha numa revista de curiosidades. Assim descubro, mais cedo ou mais tarde, que o mistério é matéria que compõe e sustenta a Terra. Olhando ainda com mais cuidado, compreendo que a nossa capacidade de contar histórias surgiu para honrar seu nome. Histórias como essa: de lugares reais preenchidos pelo encantamento são raízes que fincam nossos pés na Terra. Estamos, através delas, conectados uns aos outros, e ao universo.
A ilha chegou a ser ainda observatório de guerras napoleônicas, estudos expedicionários, e explorações feitas por homens decididos a possuí-la. A estes, houve sempre de cuspir fora, cheia de asco. Aconteceu, enfim, de vir aceitar moradores. Eram homens decididos não a tomá-la como donos, mas a oferecer-se como parte dela. Levaram consigo não fortalezas de guerra, mas suas mulheres para acariciar-lhe a terra e suas crianças para inventar nomes para as suas coisas. Hoje, 250 pessoas moram em Tristão da Cunha, mas não se pode escolher estar lá. A ilha não aceita qualquer visita. Não há aeroportos, e um único navio parte da Cidade do Cabo duas vezes ao ano a seu encontro.
Em 1961, todos os moradores precisaram deixar a ilha, pois seu vulcão ativo começara a expelir lava e cinzas por cima do vilarejo. Passaram dois anos na Inglaterra e retornaram, dois anos depois, às suas rotinas. Foi temporário. Era preciso, naquele tempo, respeitar os comandos de um vulcão. Aqueles que retornaram não voltaram para reconquistar, mas sim, para re-pertencer. Compor a paisagem da ilha. Ser, novamente, parte de seu ecossistema.
O que Tristão da Cunha guarda além dos penhascos, é a ordem de render-se ao todo. A ilha fechou-se como um baú aos que quiseram fincar nela suas próprias bandeiras. A ilha guarda com carinho, dentro de sua fortaleza, a memória e o afeto daqueles que chegaram dispostos a fazer parte, plantar o que podem, pescar o que o mar permite, caminhar por onde a terra abre passagem. Não há posse, nem conquistas. Há, simplesmente, a permanência, o pertencimento.
O que permanece em Tristão da Cunha não é a glória de exploradores, mas o silêncio das gaivotas, o vermelho do mar, a força do vulcão e a memória dos que escolheram a consonância com o todo. É assim também que devíamos chegar à Terra: carregando os olhos abertos e os estandartes baixos. Deixando-a que nos dê de comer e beber, e olhando para a paisagem como aquilo que completa a linha que desenha os nossos próprios dedos.
