O mundo é muito antigo, nada é realmente novo. Olhando para o passado, percebemos como estamos todos fadados a repetir os dilemas da humanidade. A vida nos faz atentos.
Pudera! Um momento de desatenção e estamos à beira do abismo. Nem sempre é algo ruim, mas normalmente é. “A normalidade é uma estrada pavimentada: confortável de se andar, mas flores nunca crescerão nela” — diz uma frase atribuída a Van Gogh. Caminhar por essa estrada lhe dá previsão, horizontes; é mais seguro caminhar pelos caminhos já testados pelo resto de nós…
… e tudo isso cheira a morte.
Dostoiévski e Nietzsche costumavam ser meus Malditos. Na arte e na vida, sentimentos sombrios são meu lugar-comum: identifico-os, decanto-os, disseco-os como uma folha, camada por camada, para reconstruí-los na literatura. Mas as sombras falam das luzes mais do que da escuridão; e a tragédia, mais da esperança do que a ausência de sentido.
E os bons sentimentos têm um brilho reconhecível à distância. É tão lindo, tão lindo o olhar genuíno! Essa beleza autêntica faz com que o olhar se perca. E aí, meus amigos, reside a desatenção.
Aí, o início de todas as tragédias.
Uma desatenção e uma mentira se alastra, seu melhor amigo se volta contra você, um amor se deturpa, humildade vira aspereza. Uma desatenção e você é obrigado a tomar decisões sem retorno, queimar seus navios, refazer-se, provar-se, costurar contatos, montar e desmontar equipes; renascer inúmeras, inúmeras vezes.
Não sei em que ponto me tornei tão atento, ou sei e finjo que não. O fato é que prefiro a desatenção, o delírio, o olhar quase lúdico sobre a vida. Até porque, às vezes, é indiferente estar atento ou não: a tragédia é inevitável, as pessoas estão predispostas, as pedras estão no caminho e não há como contornar.
O mundo é muito antigo, nada é realmente novo. Esse dilema (Apolo e Dioniso), eu o carrego há décadas sem nunca o resolver. Enquanto não, não custa recordar uma música que meu pai — num descuido, falecido — costumava passar nas viagens que fazíamos:
Cuide-se bem!
Perigos há por toda a parte
E é bem delicado viver
De uma forma ou de outra
É uma arte, como tudo
Cuide-se bem (1976) – Guilherme Arantes
Créditos da imagem: Agnus, de Konstantin Korobov.
