O que você faria se um dia, após conquistar sua liberdade (ainda que parcial) você se visse em meio a uma disputa judicial para garantir, mais uma vez, a sua liberdade já conquistada com muito suor e esforço? Pois essa é a história real de luta e resistência de Gertrudes Maria: Uma das personagens mais emblemáticas da História da Paraíba.
Conhecida por muitos, na época, “Negra do Tabuleiro”, Gertrudes Maria ganhou popularidade pelas ruas do centro da capital paraibana, em especial na região da Rua das Trincheiras, por onde vendia frutas, verduras e iguarias. Gertrudes era “escrava de ganho” e prestava seus serviços para Maria Antonia de Mello e Carlos José da Costa, ambos casados. Aproveitou o empobrecimento do casal para negociar a sua alforria e assim foi feito, tendo conquistado a “alforria sob condição”. Dentro do acordo, Gertrudes adquiria o direito de circular livremente, trabalhar para si e até constituir família (o que realmente fez, ao ter se envolvido amorosamente com um homem de nome desconhecido, mas que sabidamente era de origem indígena. Ao que se sabe também, ambos tiveram dois filhos).Porém, apesar de sua livre circulação, ela ainda deveria prestar serviços parciais para seus “senhores”, até a morte de ambos (quando enfim ela deveria ser livre integralmente).
Tudo parecia “perfeito” dentro da realidade de Gertrudes Maria. Porém, o empobrecimento de seus senhores também trouxeram outras questões: muitos credores queriam receber os valores que lhes cabiam receber, em especial e mais insistentemente, o Frei João da Encanação e José Francisco das Neves. Mas, como Carlos José já não tinha nada para quitar suas dívidas, dois credores passaram a exigir que Gertrudes Maria fosse vendida em praça pública, pois alegavam que seu “valor de mercado” seria suficiente para Senhor Carlos saldar as dívidas com ambos.
Em protesto legítimo, Gertrudes não aceitou tal condição, se negando a servir de moeda de troca. Lutou por anos pelo direito de não ser mais vendida ou negociada, iniciando assim o que viria a ser um grande processo judicial, sem precedentes na História da justiça paraibana. Por ser muito benquista por muitos e ter conquistado amizade de pessoas influentes da sociedade pessoense, Gertrudes conseguiu “entrar na justiça” em defesa de sua liberdade. A frente de sua defesa e do processo estava advogado e amigo, Francisco de Assis Pereira Rocha.
Parte de sua luta também se amparava no sonho de ver seus dois filhos livres. Ao que se sabe, a luta judicial se arrastou por quase 14 anos. Por inconsistência de dados, existe uma dúvida quanto ao final do processo e o veredito quanto à liberdade plena de Gertrudes. Porém, apesar da inconsistência, é certo que a luta de Gertrudes empoderou outras pessoas de sua época, em nome da garantia de dignidade e respeito. Pessoas invisibilizadas pelo processo escravocrata.
Quantas pessoas, nos dias de hoje, também necessitam dessa força motivadora em suas vidas? Em sua busca pessoal por liberdade de ser quem se é de fato. Ser de propósito! Rememorar sua história de luta é imortalizar sua existência e a luta para se manter viva e, acima de tudo: livre!
Gertrudes Maria: Presente!!!
IMAGEM: Gertrudes Maria – Acrílica sobre tela – 30×30 cm – Lais Sobreira – 2025
