Só agora é 1° de fevereiro. Enquanto tomo café, escuto uma batucada. São quatro meninos batendo em latas e um, vestido dos pés à cabeça de retalhos de sacola plástica com máscara de bicho desfilando avenida acima. É meio mágico e surreal. Mas também, para mim, que passei as férias de verão em Pilar, no interior da Paraíba, muito familiar. Mais intimamente, ainda, o que sinto ao vê-los é também um alívio e uma sutil alegria.
Estou há dias comprando, de pouquinho em pouquinho, paletinhas de maquiagem com glitter, adesivos de brilho para a pele, enfeites de cabelo, uma doleira nova. Tenho planos para a próxima semana que envolvem estar, em certos fins de tarde, no meio de uma multidão em movimento. Sei que devo perder algumas horas de sono e devo passar horas a mais em pé. Talvez termine o mês um tanto cansada, mas sei que estarei também imensamente grata, porque terá sido mais um fevereiro de festa.
Na adolescência, demorei para me apaixonar pelo Carnaval. Levei tempo para perceber o que merecia ser celebrado. Sabia que havia uma paixão avassaladora levando aquelas pessoas na televisão a passarem a madrugada vestindo fantasias de 30 quilos enquanto descem uma avenida entoando um samba-enredo a plenos pulmões. Via as lágrimas de emoção em seus olhos. Imaginava que haveria alguma força que fazia com que os “donos de boi” de Pilar se empenhassem, ano a ano, em fazer desfilar na cidade uma criatura surreal, quase mística, colorida e hipnotizante pelo mês inteiro. Havia de ter uma mão que empurrasse aqueles cortejos.
A iluminação da compreensão do que motivava esses festejos começou a me atingir aos 18 anos, quando eu e Malu finalmente tínhamos idade e convites para a festa de rua. No meio do centro histórico, enquanto uma orquestra de frevo embalava o bloco e as pessoas se impunham de uma energia quase atlética para acompanhar a música, começamos a aprender, juntas, que a festa é maior que nós. A alegria de rever amigos antigos, agora tão crescidos, na multidão, e de repente estar no meio de uma quadrilha junina em pleno domingo de carnaval era motivo de celebração. Era motivo de celebração a sensação de arrepio de ouvir os pifes descendo a ladeira e o coro de vozes entoando o frevo. De repente, fazia muito sentido. Celebrar era tudo que havia.
Poderíamos ter nascido em qualquer lugar, que esse detalhe do destino parece mesmo ser de loteria. Poderia ter sido uma cidadezinha qualquer no norte europeu, onde fevereiro é gélido e o inverno não dá frutas ou legumes. Poderia ter sido em um país em que a sequência de gerações falhou em cultivar uma identidade cultural e toda celebração é, na verdade, uma data de mercado. Mas o destino calhou de nos colocar aqui, na avenida General Osório no domingo de carnaval e há muito o que celebrar.
Pode até ser que nem todos os brincantes da multidão estejam movidos por uma emoção cheia de motivos. Pode ser que alguns deles estejam lá simplesmente porque têm vontade do contato humano e apreço pela música. Alguns irão pelos vínculos, alguns procurarão romance, outros, distração e cura de alguma ferida. Alguns são exploradores e vão somente para observar. Acho tudo muito válido, mas sou grata de poder ver tudo com esses olhos.
No carnaval, a cidade ganha outra cara. A mesma avenida que diariamente nos empurra fluxo acima para cumprir horários sem querer saber se estamos bem de saúde, se dormimos bem, se estamos de luto, agora perde a força corriqueira e está rendida, finalmente, a um sentimento: a alegria. Os foliões desfazem os sentidos propostos pelo trânsito: o que era mão ou contramão, a esquina onde é proibido virar à direita, os sinais vermelhos… A única regra agora é a festa.
Não é como se a injustiça, a doença, a desigualdade, a ganância dos governantes da cidade e a elitização destes bairros tivessem deixado de existir. O carnaval não apaga nada, mas afronta tudo isso. O povo coloca o pé na avenida anunciando que ela é dele. Que a cultura dos seus avós está aqui: viva. Que trouxeram as tradições centenárias dos interiores de onde vieram até a vista da beira-mar e nada pertence a ninguém. Tudo é propriedade da festa. É um protesto contra o silêncio e contra a morte – do corpo e da cidade.
Eu tenho grandes planos para fevereiro. Quero sair à rua lembrando que estou viva. Quero que a festa seja a minha celebração pessoal de saúde. Quero sair para comemorar minhas pernas que têm força de subir e descer as ladeiras. Quero comemorar meus braços e os abraços que darei nos amigos que vou reencontrar. Quero celebrar minha visão para ver as cores e o brilho, meus ouvidos para ouvir a boa música e a poesia, quero celebrar este lugar que me cria e a perseverança dos meus conterrâneos e antepassados que, apesar das dores e amarguras da vida, voltavam ano a ano às ruas, à batucada, aos cortejos de boi e à força do passo simplesmente para celebrar a esperança que a festa traz. A minha razão de comemoração é o frevo, o coco, o maracatu, a ciranda, os bois e ursos.
Organizo paletinhas de glitter com muito ritual e respeito. Devo terminar o mês cansada, mas muito grata, que pessoalmente vejo muita razão em comemorar o quanto me senti abençoada de estar viva, forte e estar no direito de estar aqui. A todos os que encontrar pelo caminho e aos que encontrarem estas palavras, desejo bom fevereiro. Que a esperança movimente nossos corpos. Que fazer parte disso tudo seja dádiva. Fé na festa.
