Cresci ouvindo as pessoas dizerem que, assim como os nossos pais, Deus também fica muito feliz quando agradecemos a ele pelas coisas boas que ele nos dar. Contudo, esses dias, me pus a perguntar a mim mesmo. Será que é assim mesmo? Deus é pai como um pai qualquer? E se Deus fica esperando de nós atitudes de gratidão diante das coisas boas que nos sucedem, como fica a questão do seu amor incondicional, do qual nos fala as sagradas escrituras? Os pais biológicos, comumente ficam tristes quando nós filhos somos ingratos diante das coisas que nos dão e fazem para nós, mas Deus é dessa mesma natureza? E se Deus fica triste pela nossa falta de reconhecimento diante daquilo que ele faz conosco, como fica sua essência? Qual é, mesmo, a essência de Deus? Deus não se converteria num Deus mesquinho, egoísta se ficasse chateado com nossa dureza de coração? O fato de Deus ficar, o tempo todo, esperando nossas orações de agradecimentos a ele não faz dele um Deus orgulhoso, que faz as coisas para ser visto, reconhecido, adorado?
Do ponto de vista da Teologia e da Filosofia, Deus é a única Realidade que não pode mudar, porque uma coisa quando muda ou muda para melhor ou para pior. Para melhor, Deus não pode mudar porque ele já alcançou o mais alto nível de bondade. Para pior, Deus não pode mudar porque isso contradiz a sua essência ou a sua deidade, que é justamente fazer o bem e amar incondicionalmente. Então se Deus nos ama com amor divino não tem lógica ele viver a sua vida esperando gestos de gratidão de nossa parte. Numa linguagem filosófica ainda dizemos que Deus é. E o que é, é e não pode não ser. O que não é, não é e não pode ser. Entenderemos melhor essa questão, quando estudamos o princípio de não contrariedade de Parmênides que reza que uma coisa não pode ser e não ser sob o mesmo tempo e o mesmo espaço. Deus é bom. Deus é amoroso. Deus nos ama incondicionalmente e não precisa do retorno de nosso amor. Ainda podemos frisar que a decisão de o amar é um ato de liberdade de nossa parte. E sermos gratos depende nossa atitude humana, responsável e consciente pelo fato de ele ter nos criado…
Não tenho certeza do que estou dizendo. O fato de estar indagando sobre essas problemáticas não desdiz o que se diz pela voz do senso comum. Estou apenas levantando algumas questões que podem nos ajudar a pensar ou a repensar nas coisas que afirmamos sem pensar bem. É preciso pensar bem antes de afirmar as coisas, porque antes de tudo, pensar bem faz muito bem para a alma humana e ademais, não podemos ter como certas algumas questões simplesmente pelo fato de serem professadas pela maioria ou terem sido reproduzidas de gerações a gerações. O que faz com que certas “verdades” se arrastem de gerações a gerações? Por que será que amamos afirmar as coisas que a grande maioria defende? Amamos defender essas questões, ou as defendemos por uma questão de sobrevivência? O pensamento, para ser verdadeiro, tem que ser aquele defendido pela grande massa?
Creio que uma das coisas que nos força a dizer ou repetir o que todos dizem é o fato de termos medo de sermos ignorados, incompreendidos, ficarmos sozinhos com nossos pensamentos. O pensamento, por si só, já é uma atividade solitária. Pensar é uma atitude solitária, não no sentido que só pensamos sozinhos. Eu penso com outro, penso nos outros, escrevo para os outros. O pensamento é uma atitude solitária no sentido de que necessitamos de silêncio, de deserto, de recolhimento para poder pensar. E que tem dificuldade de lidar com a solidão, não consegue pensar. Solidão? Sim, solidão dimensão também constituinte da pessoa humana. Falando em solidão, esses dias li o pensamento de Arthur C. Clarke que diz o seguinte: “Existem duas possiblidades: ou estamos sozinhos no universo, ou não estamos. Ambas são igualmente aterrorizadoras”.
Eu, pessoalmente não fico mais aterrorizado pelo fato de sentir, perceber e ter certeza de que estou sozinho. Fico abismado com a atitude alienada de muita gente em pensar que estar repleto de companhias. Que alienação! É certo que temos algumas companhias, mas companhias de quê? De quem muita gente se converte em companhia? Muitas pessoas se tornam companhias para quê? Por que a maioria das pessoas nos fazem, em determinadas fazes da vida, companhia? Até quando as nossas companhias, efetivamente, serão companhias? Só sou. Sou estou. Penso diferente porque não tenho medo de ficar sozinho com o que penso. O nosso objetivo, nessas parcas linhas, não foi falar de solidão. Queríamos apensas afirmar que o medo da solidão é uma das razões que nos fazem repetir o que todos dizem. Temos receio de ficarmos sozinhos com nosso pensamento. Parece que muita gente não sabe que existem pensamentos que não precisam ser pensados por todos para que sejam fortes. A filosofia, por exemplo, é força do argumento que sem força física, exerce uma força incomensurável entre nações, de gerações a geração. Para ela ter forças não precisa da força de multidão. A sua força sem força derruba a força de multidões. Enfim, será que Deus, efetivamente, passa o dia aguardando um ato de agradecimento nosso?
