Leitura do poema “O que juntei”, de Siéllysson Francisco da Silva
A casa abriga o devaneio, a casa protege o sonhador.
— Gaston Bachelard¹
O que Juntei
Apago as luzes da sala,
ando pelo corredor.
Corre avulso meus pensamentos toscos.
Quantos pensamentos tolos tenho;
tantos pensamentos tolos têm sobre mim.
E que importa agora?
Construí paredes que me sobram,
portas que fecho contra mau olhado
e outros pecados alheios,
quando na verdade cometo os meus.
Ah, tenho muitos, não os coleciono
Apenas surgem de mim, por mim, para mim e…
Não me escondo deles, nem os procuro.
Já disse: “Não os coleciono!”
Tenho muitos CDs raros,
Tenho muitos defeitos,
depende do dia; há dias que os vejo como qualidades.
Qualidades são alguns livros que passeiam
em minha estante torta esperando serem relidos.
Adoro tortas, mas tenho habilidade em bolos,
Guloseimas, petiscos, sexo, não nesta mesma ordem.
Meus versos podem parecer sem ordem, sem nexo,
mas a vida não. Mesmo quando não uso a agenda,
as ordens das coisas acontecem em minha vida.
Tenho porcelanas, tenho nódoas me mangas,
tenho mágoas de todos os tipos. Viu, Holanda?
E discos imprestáveis de vinil,
me pergunto quem diabos herdará tantas peles.
Há peles de sonhos e fantasias,
de escritos inéditos,
de restos de porcelanas históricas,
de móveis com traças
de vasos quebrados,
de desilusões amontoadas,
de espelhos manchados,
tudo isso me forma
para um dia deformar
ou tomará outra forma bem particular de outra pessoa,
que nada entenderá de minhas dores
e dos meus amores
e de minhas necessidades.
Pois terá outras necessidades
por ser outra pessoa, outra realidade.
Cansei de pensar além do futuro!
No presente me resta uma cama e
um acúmulo de sonhos de várias épocas.
Fecho a janela,
Apago o abajur que brindei com vinho,
Apago lentamente as ideias e perturbações.
Acalmam-se as palavras, o pó de café fora da hora,
a ansiedade, os medos…
me equivoco de meus pensamentos,
acumulados durante o dia,
engaveto-os.
Mando-os elegantemente para a puta que os pariu.
Deito e durmo sozinho,
acolhido pelas camadas de lençóis
que juntei uma vida inteira.
Alguns poemas nascem na intimidade, mas revelam plenamente sua força quando retornam ao mundo pela voz de outros. Foi o que ocorreu com “O que juntei”, de Siéllysson Francisco da Silva, quando o texto foi recitado publicamente por artistas durante o lançamento do livro Cafofo e suas experiências culturais, em junho de 2024. O encontro celebrava dez anos de saraus, convivência e experiências artísticas que se formaram em torno do espaço conhecido como Cafofo, mais do que um lançamento literário, tratava-se da celebração de um percurso cultural. No próprio livro, o autor observa:
O que estou produzindo não é apenas a história de uma casa (espaço físico), mas sim um movimento cultural que emergiu de um lar, com a participação de diversos atores sociais que aqui deixam suas impressões, memórias e contribuições. Siéllysson Francisco da Silva
A afirmação desloca a casa do campo estritamente privado para o da experiência cultural compartilhada. O Cafofo passa a operar como território simbólico de criação e convivência — um espaço onde memórias individuais se entrelaçam com experiências coletivas.
Nesse contexto, a leitura do poema assumiu um sentido particular. O texto, originalmente escrito na esfera da introspecção, retornava ao autor mediado pela voz daqueles que participaram da construção daquele espaço. O que era confissão tornava-se reconhecimento.
A CASA E O INÍCIO DA CONSCIÊNCIA
O poema se inicia com uma cena simples e silenciosa:
Apago as luzes da sala,
ando pelo corredor.
O gesto doméstico inaugura um movimento de interiorização. A casa aparece como cenário inicial da reflexão, mas rapidamente se revela mais do que um espaço físico. Como observa Bachelard, a casa é também um lugar da memória e da imaginação — um espaço onde a vida interior encontra abrigo. Ao atravessar o corredor, o eu lírico parece atravessar também a própria consciência. Logo surgem os pensamentos dispersos:
Corre avulso meus pensamentos toscos.
Quantos pensamentos tolos tenho;
tantos pensamentos tolos têm sobre mim.
O poeta reconhece não apenas a banalidade de certos pensamentos, mas também a condição de ser alvo do pensamento alheio. Pensar e ser pensado tornam-se experiências simultâneas. Essa duplicidade introduz uma tensão essencial da vida social: somos sujeitos e, ao mesmo tempo, objetos de julgamento.
A lucidez que atravessa o poema nasce justamente desse reconhecimento.
MUROS, DEFEITOS e CONSCIÊNCIA MORAL
Nos versos seguintes parece a imagem da parede:
Construí paredes que me sobram,
portas que fecho contra mau olhado
e outros pecados alheios,
quando na verdade cometo os meus.
Erguer muros contra os erros do mundo é um gesto recorrente da consciência moral. No entanto, o poema rapidamente desfaz essa proteção simbólica. O poeta reconhece que os mesmos erros que procura evitar também existem dentro de si. A confissão surge sem dramatização:
Ah, tenho muitos, não os coleciono
Apenas surgem de mim, por mim, para mim.
A ironia da expressão — “não os coleciono” — revela uma consciência desarmada diante da própria imperfeição.
OBJETOS, LIVROS E A MATÉRIA DA EXPERIÊNCIA
É nesse ponto que o poema começa a construir uma espécie de inventário do cotidiano:
Tenho muitos CDs raros,
Tenho muitos defeitos,
depende do dia; há dias que os vejo como qualidades.
A proximidade entre objetos e traços de personalidade sugere uma intuição importante: a identidade humana se constrói também a partir daquilo que acumulamos ao longo da vida. Logo surgem os livros:
Qualidades são alguns livros que passeiam
em minha estante torta esperando serem relidos.
A estante torta funciona como uma imagem silenciosa da própria existência — imperfeita, irregular, mas cheia de histórias. O poema então rompe qualquer possibilidade de solenidade excessiva:
Adoro tortas, mas tenho habilidade em bolos,
guloseimas, petiscos, sexo, não nesta mesma ordem.
Esse trecho aproxima a poesia da experiência comum. O eu lírico não se apresenta como figura idealizada, mas como alguém atravessado por desejos simples e prazeres da vida.
A DESORDEM DOS VERSOS E A ORDEM DA VIDA
Em um dos momentos mais reflexivos do poema, o autor observa que seus versos podem parecer desordenados. Contudo, afirma que a vida possui uma lógica própria, ainda que muitas vezes invisível.
Meus versos podem parecer sem ordem, sem nexo,
mas a vida não.
Essa afirmação funciona como comentário sobre o próprio poema. A escrita pode parecer fragmentada, mas a vida possui sua própria lógica, mesmo sem planejamento:
Mesmo quando não uso a agenda, as ordens das coisas acontecem em minha vida.
Existe uma espécie de organização invisível no fluxo da existência. Neste sentido, essa passagem funciona como uma espécie de reflexão sobre o próprio fazer poético. O poeta reconhece a aparência fragmentária do poema, mas sugere que a aparente desordem da linguagem não impede a existência de uma ordem maior, aquela que organiza silenciosamente os acontecimentos da vida. Mesmo quando o poeta não recorre a agendas ou planejamentos, as coisas seguem seu curso. Há uma estrutura invisível governando o tempo e os encontros.
O INVENTÁRIO DAS CAMADAS DA VIDA
Em determinado momento, o poema assume explicitamente a forma de um inventário:
Tenho porcelanas, tenho nódoas em mangas,
tenho mágoas de todos os tipos…
Objetos materiais e experiências emocionais aparecem lado a lado. A vida surge como um arquivo heterogêneo de coisas e lembranças. Surge então a imagem central do poema:
… me pergunto quem diabos herdará tantas peles.
Cada pele representa uma camada da experiência acumulada ao longo do tempo. O inventário continua:
Há peles de sonhos e fantasias, de escritos inéditos, de restos de porcelanas históricas, de móveis com traças, de vasos quebrados, de desilusões amontoadas.
A repetição cria um efeito de acumulação que imita o próprio acúmulo da vida. A enumeração produz um efeito de acumulação que imita o próprio acúmulo da vida. Como observava Walter Benjamin² ao refletir sobre o colecionador, os objetos guardados raramente são apenas coisas: cada um deles carrega uma história silenciosa. Essas camadas formam o poeta:
…tudo isso me forma para um dia deformar ou tomará outra forma bem particular de outra pessoa.
Aqui surge uma reflexão profunda sobre a impermanência. Aquilo que hoje constitui a identidade do autor poderá ser reinterpretado no futuro por alguém que não compreenderá completamente seu significado.
A CONSCIÊNCIA DA IMPERMANÊNCIA
O poeta reconhece que suas experiências não poderão ser totalmente compreendidas por outros:
… que nada entenderá de minhas dores
e dos meus amores
e de minhas necessidades.
Cada pessoa possui sua própria realidade e seus próprios desejos. Essa percepção conduz a um gesto de cansaço existencial:
Cansei de pensar além do futuro!…
O autor decide abandonar a especulação sobre aquilo que acontecerá depois.
O RETORNO AO PRESENTE
Após essa reflexão, o poema retorna ao presente:
…No presente me resta uma cama e
um acúmulo de sonhos de várias épocas…
A cama representa o lugar de descanso, mas também o espaço onde sonhos e memórias continuam se misturando. O poeta, então, encerra o dia:
…Fecho a janela, apago o abajur que brindei com vinho,
apago lentamente as ideias e perturbações.
O ambiente doméstico volta a ocupar o centro da cena. A noite se instala. Depois de refletir sobre o futuro de suas memórias, o poeta decide interromper essa especulação. Ele declara estar cansado de pensar no “além do futuro”. É no presente que a existência acontece.
O ENCERRAENTO: SILÊNCIO, HUMOR E RECONCILIAÇÃO
Nos versos finais, o poema retoma o cenário doméstico e noturno. O poeta fecha a janela, apaga o abajur e permite que as inquietações do dia se dissolvam lentamente. As palavras se acalmam. A ansiedade diminui. Os medos perdem força. Então surge um dos momentos mais inesperados do poema:
…me equivoco de meus pensamentos,
acumulados durante o dia, engaveto-os.
Mando-os elegantemente para a puta que os pariu.
A linguagem, subitamente coloquial e irreverente, rompe o tom contemplativo anterior. Essa ruptura não diminui o lirismo do poema; ao contrário, humaniza-o. O autor reconhece que nem todos os pensamentos merecem ser levados a sério. Alguns simplesmente precisam ser abandonados. O poema encerra-se com uma imagem de descanso:
Deito e durmo sozinho,
acolhido pelas camadas de lençóis
que juntei uma vida inteira.
As camadas de lençóis funcionam como metáfora final de tudo aquilo que o autor acumulou ao longo da vida: experiências, memórias, afetos e cicatrizes. Se antes ele enumerava objetos e lembranças, agora essas camadas tornam-se abrigo simbólico da própria existência.
POESIA COMO EXPERIÊNCIA COLETIVA
Quando lido no contexto do Cafofo, o poema ganhou uma dimensão ainda mais profunda. O espaço que acolheu artistas, leitores e amigos ao longo de dez anos tornou-se, também, lugar de partilha da intimidade do poeta. A leitura surpresa realizada pelos amigos durante o lançamento do livro transformou os versos em um gesto coletivo de memória e reconhecimento. Aquilo que nasceu da introspecção individual retornou ao autor através dos artistas que ajudou a construir aquele espaço cultural.
Nesse sentido, “O que juntei” não é apenas um inventário pessoal. É também um testemunho das experiências, encontros e histórias que se acumularam naquele espaço ao longo do tempo. E talvez seja justamente esse o sentido mais profundo do poema: perceber que aquilo que juntamos na vida nunca pertence apenas a nós.
¹ BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
² SILVA, Siéllysson Francisco da. Cafofo e suas experiências culturais. Paraíba: Sal da Terra, 2024.
³ BENJAMIN, Walter. Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense, 1995.
