Ah, a bolacha pedagógica! Esse apelido carinhoso, quase poético, que todo professor deste vasto Brasil já ouviu ecoar nos corredores das escolas, entre uma aula e outra, no intervalo sagrado que separa muitas vezes o caos da ordem, a paz da guerra. É o cream-cracker, esse biscoito salgado e implacavelmente crocante, com sua massa folhada que range nos dentes como um segredo mal guardado. Às vezes, vem com um toque sutil de gordura, que derrete na boca e lembra que, mesmo na seca da merenda, há um fiapo de conforto.
Nascida nas padarias de Dublin, na Irlanda, lá pelos fins do século XIX – quando o mundo ainda se lambuzava com a segunda Revolução Industrial –, a bolacha cruzou oceanos e aportou no Brasil na segunda metade do século XX. Veio discreta, mas conquistou territórios. Criança que é criança – e adultos que já foi – devorou pilhas dela no lanche da tarde, no café da madrugada, mergulhada em suco aguado ou leite morno. Assistindo na TV, ou simplesmente matando a fome que apertava como um nó na barriga. Barata que só, foi salvadora em tempos de vacas magras, quando o pão de queijo era luxo e o arroz-doce, sonho distante.
Mas foi nas escolas que ela ganhou status de ícone pedagógico. Nas salas de professores, virou moeda de troca nas sociabilidades do magistério: “Pega uma bolacha aí, enquanto a gente corrige essas provas?”. Era o combustível improvisado junto ao café quente para conversas sobre aulas improvisadas e loucuras dos alunos. Eu mesmo, nos meus primeiros anos de magistério na educação básica –, fui vítima involuntária dessa oferenda cotidiana. Lá estava ela, empilhada em pratos azuis de plástico, ao lado de um suco de goiaba tão ralo que dava para ver o outro lado do copo. Seca ou molhadinha, crocante ou murcha, engolia-se por educação, por camaradagem, por pura sobrevivência entre uma turma de sexta série e outra de terceiro ano.
Os alunos, ah, os alunos! Para eles, a bolacha transcendia o estômago. Virou brinquedo, arma, lenda. Lembro de uma tarde em que o cream-cracker se transformou em munição de guerra. Um peteleco bem dado, e o biscoito voava acertando o coleguinha na nuca. Risadas abafadas, funcionários em polvoroso: “Quem foi? Isso aqui não é circo!”. Outra vez, numa disputa épica de “quem sacode mais longe”, um menino usou o biscoito como bumerangue. Girou no ar, quicou na parede e voltou – milagre da física escolar – acertando o fiscal de sala, que ficou possessíssimo, com farelos no uniforme e fúria nos olhos. Nós, professores, ríamos por dentro, mas fingíamos bronca. Afinal, era a bolacha pedagógica: santa e profana ao mesmo tempo.
Com o tempo, porém, ela rareou. Nas escolas por onde passei nos últimos anos, o cream-cracker perdeu o trono. Derrotado pelo pão doce, pela sopa quente, pelo cuscuz com ovo, pelo arroz-de-leite com charque. A bolacha agora é exceção: o dia em que a merenda atrasou, o fornecedor falhou, o caminhão atolou. Entra como coadjuvante, tímida, num cantinho do prato, talvez com uma banana ao lado.
Ficou o trauma, confesso. Hoje, adulto e professor calejado, olho para um pacote de cream-cracker na prateleira do supermercado e sinto um arrepio. Excesso de infância escolar, talvez. Mais do que isso, de professor dedicado que sente as limitações dos ambientes. Imagino que alguns ex-alunos sintam algo parecido: o garoto que virou engenheiro, a menina que agora leciona, todos carregando esse pedacinho crocante de nostalgia. Ela nos uniu, nos dividiu, nos alimentou – literal e metaforicamente. No fim das contas, a bolacha pedagógica é mais que um biscoito. Ou bolacha? É crônica viva da educação brasileira: simples, resistente, multifuncional. Sobreviveu a ditaduras, crises econômicas, reformas curriculares. Continua ensinando no prato do brasileiro.

Em alguns lugares, a pedagógica bolacha resiste, seja com suco ralo, leite águado ou café cotizado, somente aqueles que passam pelos anos do ensino básico conseguem expressar essa nostalgia as vezes nefasta e presente de consumir a famigerada…