A cidade de Santa Rita, como tantas outras cidades desse imenso Brasil, ainda não tem uma política de preservação de acervos documentais. Isso demanda uma tarefa imensa por parte dos historiadores locais em reconstituir o passado da cidade. Para suprir essa lacuna, lançamos mão de outros recursos como por exemplo a consulta a jornais de época, depoimentos orais de figuras representativas da sociedade local, etc.
Esse é o caso de se pesquisar por exemplo a história da imprensa em Santa Rita no que se refere aos seus jornais nas primeiras décadas do século XX em plena vigência do regime republicano em nosso país.
Essa preocupação remonta a década de 70, quando uma de nossas melhores historiadoras, a professora Martha Falcão de Carvalho e Morais Santana, havia concluído o seu curso de especialização sobre história do Brasil na UFPB e começou a se interessar pelos jornais da Santa Rita do início da República.
Ela teve evidentemente de recorrer a fontes orais para tentar reconstituir o universo do periodismo da terrinha em virtude da falta de outros acervos. E ela nessa empreitada teve a felicidade de entrevistar muitas e muitas personalidades que naquela época estavam vivas.
Ela conseguiu entrevistar um dos pioneiros do jornalismo santarritense, Laime Lacet, além na época da já octogenária, porém muito lúcida, Dona Corina Gomes da Silveira (Dona Cotinha), viúva de um dos mais antigos boticários da cidade e também político, Joaquim Gomes da Silveira (Ioyô Silveira).
Durante sua pesquisa, ela constatou que, “os jornais santarritenses, talvez pela proximidade da Capital, pela falta de recursos, pelo autoritarismo reinante a nível local, ou ainda, pelo fato talvez da constante migração dos profissionais de imprensa para o sudeste do país, em busca da sobrevivência, tiveram duração efêmera”.
Entrevistando Dona Cotinha, Martha Falcão soube por ela que os principais pioneiros do jornalismo em Santa Rita foram: Jaime Lacet, Professor Luis Soares, Abiatar Vasconcelos, Valdemar Carvalho Lélis, Benjamin Franklin de Brito, Francisco Teixeira de Vasconcelos (pseudônimo Célio), Floriano Mendes, Lapemberg Medeiros (também dedicado a pesquisa história e autor de Apontamentos para a História de Santa Rita 1890-1947), Gasparino Ribeiro da Costa, Deolindo de Carvalho, Manoel Atanázio e Sebastiao Castelo Branco.
Em suas pesquisas, Martha Falcão, consultou as obras de dois grandes historiadores paraibanos, José Leal, autor de Itinerário Histórico da Paraíba e Irineu Ferreira Pinto, autor de Datas e Notas para a História da Paraíba, e através deles tomou conhecimento que o primeiro jornal santarritense foi O REBATE, semanário político-literário noticioso de oposição a política epitacista local, chefiada pelo Coronel Francisco Alves de Souza Carvalho – Coronel Chico Carvalho. Sob a direção dos Walfredistas bacuraus Dr. Cardoso, Olinto Gil de Freitas e do comerciante Francisco Vergara.
Esse veículo de imprensa circulou de maio a julho de 1915, ano em que o epitacismo substituiu no poder a oligarquia alvarista no comando do governo do Estado. E prosseguindo com sua pesquisa história, nossa maior historiadora apurou que, “No ano seguinte para comemorar a espetacular vitória do epitacismo, surge o jornal situacionista e também semanário de cunho político intitulado O JORNAL DE SANTA RITA, totalmente financiado pelos cofres municipais e sob o patrocínio do Coronel Chico Carvalho. Este jornal se restringiu apenas ao primeiro número todo ele dedicado, segundo D. Cotinha Silveira, a homenagear a política de Epitácio Pessoa e ao decano chefe político local, padre Manoel Gervásio Ferreira da Silva – Pe. Ferreira, falecido naquele ano”.
Durante a pesquisa, Martha Falcão, ia tirando suas conclusões como todo bom historiador faz. Nesse sentido, ela afirmava que, “ A repressão e o mandonismo se firmam no município, sob o comando do Chefe de polícia – o capitão Bernardo Alves de Souza Carvalho, irmão do chefe político local, justificando que só em 1918, em plena Grande Guerra, surgisse o semanário lítero-noticioso denominado A LUZ, com notícias reproduzidas do rádio, enfocando os lances do conflito mundial e suas trágicas consequências para o mundo. A LUZ era dirigido pelo jovem progressista Floriano Mendes e circulou apenas três semanas “.
Continuando sua análise, ela salienta que, “Durante a maior parte da Primeira República em Santa Rita, ou seja, de sua emancipação, em março de 1890, até o pleito para o quatriênio de 1921-1924, o Coronel Chico Carvalho detém o domínio absoluto da política do município, impedindo pela violenta repressão, qualquer forma de jornal de oposição. Porém, o crescimento da população urbana com a emergência de novos segmentos ligados ao comércio, ao artesanato, a pequena indústria e ao operariado emergente (sob a liderança inconteste de David Falcão), além do surgimento das usinas, vai cavar as primeiras brechas na liderança exercida pelo velho Coronel Chico Carvalho. E a contestação ao mandonismo local se evidencia no pleito de 1921, quando, mesmo gozando de todo prestigio na esfera estadual, inclusive tendo seu filho Enéas Carvalho, sido nomeado pelo governo estadual como Intendente de Santa Rita, na composição do Conselho Municipal, onde o voto era direto, sofre o velho oligarca amarga derrota. O seu maior adversário político, Raul Dias Cardoso, com a ajuda do operariado da Fábrica Tibiri (Companhia de Tecidos Paraibana – CTP), foi o conselheiro mais votado, tendo sido ainda escolhido por seus pares para a Vice-Presidência do Conselho, iniciando assim uma política de franca oposição”.
Para Martha Falcão, nesse momento há uma fusão entre esse grupo de oposição claramente urbano com os usineiros. Essa união se verifica porque, “ Essa ala de oposição nitidamente urbana composta por elementos como Joaquim Gomes da Silveira, Ceslau Gadelha, Terêncio Ferreira, José Galdino de Melo e Gasparino Ribeiro da Costa, dentre outros, começa a ligar-se aos usineiros quer como seus fornecedores, quer como financiadores e compradores da produção açucareira de suas usinas. Em contrapartida, os usineiros em ascensão, em concorrência política com alguns senhores de engenho do bloco político do então senhor de engenho Chico Carvalho, em virtude da concorrência do açúcar produzido nos engenhos e vendido no mercado local a preços mais baixos, tornam-se adversários ferrenhos do grupo situacionista, muito embora continuassem epitacistas”.
Continuando em suas análises sobre a história dos jornais em Santa Rita, Martha Falcão afirma que: “E a 18 de dezembro de 1924, as ruas de Santa Rita amanhecem cheias de um panfleto, tipo boletim, de autoria de Terêncio Ferreira, denominado, “Alerta ao Povo de Santa Rita”, onde na condição de porta-voz da dissidência, apresenta ao eleitorado, os candidatos (de oposição) ao Conselho Municipal:
“Santarritenses! Realizando-se no dia vinte do corrente as eleições municipais, resolvo como intérprete de meu povo, apresentar livre e independente de qualquer acordo com o chefe político local, uma chapa para Conselheiros Municipais, a ser sufragada na mesma eleição. Sendo esta chapa que ora apresenta ao sufrágio do eleitorado livre desta terra bendita que me serviu de berço, devemos esperar composta de cidadãos independentes e que representam as classes mais laboriosas da nossa Comarca, indústria, lavoura e comércio, é de esperar que todo Santarritense digno, honrado e de brio, vote sem discrepância na chapa abaixo mencionada, certo de que, assim o fizer, terá prestado um preito de justiça, votando em cidadãos de reconhecida probidade moral, de quem muito devemos esperar a bem do soerguimento material e político de nossa amada Santa Rita, que num dos mais felizes momentos acaba de ser lembrada pelo honrado Dr. Presidente de nosso Estado – João Suassuna, elevando-a a categoria de cidade. Outrossim, faço ciente que não me distanciei da tradicional política do grande paraibano Epitácio Pessoa, chefiada pelo benemérito Dr. Solon de Lucena, e sim, estou divorciado de toda e qualquer orientação política do chefe local. Portanto, espero que os meus conterrâneos saibam desta vez colocar bem alto o nome do nosso querido berço, provando que o direito sagrado do voto é a tradição eloquente da liberdade de um povo” (Lapemberg Medeiros op. cit, pag. 123).”
O discurso de Terêncio Ferreira repercutiu junto ao eleitorado da cidade, pois segunda Martha Falcão, “Com esmagadora vitória a dissidência consegue eleger os novos conselheiros: 1. Joaquim Gomes da Silveira (proprietário rural e boticário), presidente; Horácio Tavares de Melo (comerciante), vice-presidente, além dos conselheiros: Henrique Crisóstomo de Carvalho, Luiz Emilio de Albuquerque, Gasparino Ribeiro da Costa, Raul Dias Cardoso (Presidente no segundo período), Luiz de Melo do Rego Barros e Ceslau da Costa Gadelha”
A partir de então, os dissidentes se transformam em oposição, agora que estavam com o poder político nas mãos. Os conselheiros, jornalista Gasparino Ribeiro da Costa e Raul Dias Cardoso, fundam o primeiro e mais combativo jornal político da cidade de Santa Rita – A VOZ DO POVO, em julho de 1925, infelizmente circulou esse periódico com apenas um número, mesmo assim com um editorial violento contra a política comandada pela família Carvalho na cidade.
Em depoimento a historiadora Martha Falcão, o então jornalista Jaime Lacet, afirmou que a tipografia do jornal A VOZ DO POVO, que funcionava na rua da Igreja da Conceição, hoje Simeão Leal, foi totalmente destruída e seus redatores todos presos pelas tropas do Capitão Bernardo Carvalho.
Ainda na década de 20 surgia outro jornal em Santa Rita, A FAISCA, semanário satírico-humoristico fundado pelo sr. Abiatar de Vasconcelos e o professor Luiz Soares, que em seu decimo terceiro número, ao comentar as eleições a bico de pena, as fraudes eleitorais daquele período tão em voga na política local, foi também destruído pela polícia política da família Carvalho e seus redatores presos e espancados.
Essa prática constante de violências por parte da polícia local, contribuiu para arrefecer a postura crítica dos jornais que surgiram depois, os quais limitaram-se a publicar em suas páginas somente comerciais, sonetos, charadas, contos e novelas, além das notícias locais, estaduais e nacionais transmitidas pelo rádio anteriormente.
Entre janeiro e março de 1926 surgiu o semanário lítero-humoristico – O CRUZEIRO, tendo como colaboradores: Jaime Lacet, Francisco Teixeira de Vasconcelos (Célio) e Floriano Mendes (diretor).
Antes do movimento revolucionário de 1930, que levou Getúlio Vargas ao Poder, fundou-se em Santa Rita o primeiro jornal totalmente dedicado ao humorismo – O RISO, dirigido por Francisco Teixeira de Vasconcelos e Manuel Atanázio, sendo mais tarde ampliado, transformando-se em quizenário lítero-humoristico e noticioso com o nome de CHARLESTON, tendo circulado até julho de 1930, contando também com a participação de Valdemar de Carvalho Lelis, Deolindo de Carvalho e de Benjamin Franklin de Brito.
No entanto foi em janeiro de 1937, dez meses antes do golpe que instituiu a ditadura do Estado Novo em nosso país, que o então Prefeito de Santa Rita – Dr. Flávio Maroja Filho, em comemoração ao primeiro aniversário de sua administração, fez publicar aquela que seria uma das mais importantes publicações em forma de estatística da cidade de Santa Rita. Estamos nos referindo ao ANUÁRIO INFORMATIVO DO MUNICIPIO DE SANTA RITA, (hoje, uma verdadeira relíquia literária). Nessa publicação vamos encontrar dados estatísticos da cidade de Santa Rita nas mais diferentes áreas da administração pública, referentes ao ano de 1936.
A direção geral da mencionada publicação, foi confiada ao jovem estudante Lapemberg Medeiros, tendo como Diretor-Secretario, Waldemar de Carvalho Lelis e Diretor-Gerente, Jaime Lacet. Segundo Martha Falcão, “ a primeira homenagem do anuário é para o chefe oligarca Flávio Ribeiro Coutinho, com retrato na primeira página seguido do discurso do prefeito cujo trecho inicial transcrevemos:
“ Hoje, 27 de janeiro, eu sinto n’alma um misto de alegria e evocação. Alegria em ver realizado um melhoramento indispensável ao progresso de Santa Rita: o nosso Matadouro Municipal. Evocação porque hoje, se vivo fosse, completaria o seu centenário de nascimento, um cidadão probo, justo e honrado, o Cel. João Ribeiro Coutinho, cujo sangue correm nas veias de minhas filhas, e cujas virtudes acrisoladas e exemplo de desprendimento e trabalho, reflete-se, exalta-se, na pessoa do chefe e amigo dos melhores – o Dr. Flávio Ribeiro Coutinho.”
Infelizmente esse anuário ficou apenas no primeiro número, se constituindo hoje uma fonte preciosa de pesquisa para se compreender a cidade de Santa Rita na década de 30.
Sempre se valendo da história oral, Martha Falcão, através de seus entrevistados, analisou os primeiros jornais de festa da cidade de Santa Rita. Nesse sentido, é ela mesmo quem diz, “ Ainda nos arrimando na história oral, tivemos noticia pelos entrevistados, de que, nosso primeiro jornal de festa foi o PHOENIX, que circulou pela primeira vez no natal de 1926, com bilhetes e telegramas dos enamorados da época as suas amadas, repetindo-se a circulação em maio do ano seguinte, na festa da padroeira, em dezembro do mesmo ano, na festa da conceição, e no mês seguinte, na festa de natal, e sua última aparição foi em maio de 1928, na Festa de Santa Rita. Era dirigido por Floriano Mendes e Sebastião Castelo Branco e vendido no coreto da Praça Pedro II (hoje Getúlio Vargas) e aos participantes do grande Baile defronte a Matriz, bem como no passeio do “quem-me-quer” na Praça Pe. Ferreira (atual João Pessoa). Muitos anos se passaram até que Santa Rita tivesse novamente um jornal de festa, o que só ocorreu na década de 60, tendo como redator o então universitário de Direito Everaldo Cantalice; saiu o primeiro número do jornal de festa O CLARIM, jornal de humor sadio, vendido a preço simbólico em nossas festas de natal e considerado o mais duradouro de nossos jornais de festa”
A história dos jornais impressos nas décadas seguintes em Santa Rita, será objeto de outro artigo em outra oportunidade.
REFERÊNCIAS:
Imprensa no Cotidiano de uma Cidade – A Santa Rita no seu 101º aniversário de emancipação – Jornal de Domingo, A UNIÃO, edição de 14 de abril de 1991.

