“De fato, se escrever nos impõe uma máscara, então escrever em outro idioma nos impõe uma máscara dupla, isto é, um novo rosto” (p. 69). Com essa imagem precisa e provocadora, Fabio Morábito, o versátil autor ítalo-mexicano que transita entre poesia, conto, romance e ensaio, resume o cerne de sua obra mais recente no Brasil: O idioma materno. Traduzido por Mariana Sanchez e lançado em 2025 pela Editora Relicário, o livro chega como uma rara oportunidade para o público brasileiro revisitar um escritor cuja única publicação anterior por aqui, Quando as panteras não eram negras (Editora 34, 2008), já revelava um talento inconfundível, mas que acabou passando despercebido.
Confesso que desconhecia Fabio Morábito até pouco tempo, e isso só mudou graças à indicação precisa do amigo André Ricardo Aguiar, que ficou encantado com a exatidão, o bom humor e as escolhas temáticas tratadas pelo autor. André Ricardo Aguiar leu Morábito e notou pontos de convergência com o meu livro, “A pele da minha casa”. Entre eles, a abordagem sobre o universo do livro, da leitura e da escrita, relacionando-os a lembranças pessoais.
O idioma materno trata-se de uma coletânea de ensaios curtos, originalmente publicados no prestigiado jornal argentino O Clarín, mas que, ao mergulharmos na tradição nacional, ecoam com nitidez as semelhanças com o formato de nossas crônicas — pense em Rubem Braga ou Carlos Drummond de Andrade, com suas economias de palavras e potências evocativas. Morábito entrelaça memórias cotidianas, muitas delas ancoradas na infância nômade, a reflexões afiadas sobre o ofício da escrita, criando um mosaico íntimo e universal. A matéria-prima é o dia a dia filtrado pela memória, um universo autobiográfico que não se confina ao narcisismo, mas se expande para questionar, com certa ironia, as camadas da identidade linguística e cultural.
O fio condutor — e o que eleva o livro a um patamar reflexivo superior — é o idioma como tradução existencial. Nascido no Egito em 1955, transferido à Itália aos três anos (terra natal dos pais) e estabelecido no México desde os 15 anos, Morábito escreve exclusivamente em espanhol, relegando o italiano materno a uma presença simbólica.
Essa “segunda máscara” não é mera metáfora: ela pulsa ao longo dos textos, ilustrando como línguas em colisão revelam suas essências. “Um idioma respira de verdade quando entra em contato com outro, que o obriga a expor todas as suas variáveis expressivas, pois traduzir consiste sobretudo em abraçar” (p. 143-144). Abraços, rostos, máscaras: essas imagens recorrentes tecem uma rede semântica que transforma o livro em um verdadeiro exercício de tradução cultural, quase sempre com uma fina ironia.
Os ensinamentos sobre escrita representam um ponto alto da obra, entregues com uma perseverança bem-humorada que desmistifica o mito do gênio inspirado. “Não concebo a escrita como uma atividade ilustre, mas furtiva” (p. 12), sentencia Morábito, ecoando a valorização da vida “ao rés do chão”, como diria Antonio Candido. Mais uma vez, a alusão à crônica brasileira se manifesta.
Em outra passagem lapidar, afirma: “O escritor é alguém que enfrenta o fracasso, por assim dizer, sua missão, enquanto os outros simplesmente redigem” (p. 61). Ele estende essa sabedoria a práticas cotidianas como leitura, escrita e coleção de livros, confessando que alguns exemplares podem ser elevados a pilares de uma biblioteca pessoal. No caso de Fabio Morábito, são: O estrangeiro, de Camus, e Esperando Godot, de Beckett.
Tal afirmação me fez refletir sobre quais seriam os pilares da minha própria biblioteca. Acredito que são Grande Sertão: Veredas, de João Guimarães Rosa, e Crime e Castigo, de Fédor Dostoievski. Mas, como acredito que uma casa não se sustenta com apenas dois pilares, colocaria mais dois nesta lista: Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, e Poemas Completos, de Herberto Helder.
Destaco ainda no livro de Fabio Morábito as crônicas memoráveis: “Sublinhar livros”, onde o sublinhador emerge como um segundo autor de uma obra (algo com que concordo plenamente); “Falta de aviões”, “Arrumando a mala” e “O trem de Troia”, que brincam com o efeito efêmero das viagens ou tradições culturais clássicas; e “Humilhação”, talvez a mais impactante emocionalmente para mim, ao afirmar que “a humilhação mata, mas também regenera”. Pensei em quantas vezes fui humilhado e como tal prática não me diminuiu, mas me deixou mais forte.
Em um tempo de narrativas efêmeras e fragmentadas pelas redes sociais, O idioma materno surge como antídoto: um exercício magistral de tradução cultural e literária, profundo sem ser pedante, acessível sem ser raso. Morábito nos convida a revisitar o idioma não como prisão, mas como ponte entre mundos, essencial para quem ama ler, escrever ou simplesmente habitar múltiplas identidades. Leitura imperdível para amantes da prosa reflexiva. Adorei conhecer a “segunda máscara” do autor, ou seu novo rosto, através da tradução de Mariana Sanchez. André Ricardo Aguiar, obrigado pela dica certeira.
