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Pureza de Coração

Hoje eu peço uma pausa de mil compassos. A vida anda corrida, o mundo está mudando, e eu, entre uma atividade e outra, permaneço tentando desentranhar a poesia oculta nas coisas. Hoje não…

Hoje eu quero silêncio. Por favor, faça silêncio! Se é dado a ler em voz alta, há outras colunas nesse amável portal. Aqui, apenas hoje, mantenha o silêncio. A leitura é outra quando não ouvimos a própria voz; parece outra pessoa, entre tórax e abdome.

Sim, há algo visceral na leitura silenciosa. Há romances para ser declamados, outros para ser lidos em silêncio. Acho que meu Dois Sonhos só faz sentido em silêncio. É só no silêncio que o turbilhão de Isaac consegue ser ouvido, que as grades de sua condição podem ser tocadas.

Eu me inspiro em Kafka, nesse sentido. Em O Processo, o absurdo engole o leitor, que precisa manter caladas suas imagens de mundo — e a leitura silenciosa é um bom meio para isso.

Dostoiévski, a meu humilde ver, é bem o oposto: O Idiota é livro para ser lido em voz alta, em tom de deboche por vezes. Coitado do príncipe Míchkin! E que ambiência hipócrita! Como a nossa também, ah… Já aquelas cenas obscuras, aquela mulher… Eu leria essas páginas em voz baixa, atmosférica, em respeito à profunda confusão do idiota.

Este texto, entretanto, pede silêncio… Vamos conversar, mas mantenha o silêncio.

Eu fiz até aqui algo que não fazia há bastante tempo: não tratei de estrutura social, nem linguagem, nem Poder. O fato é que ando cansado de refletir sobre os desafios do mundo, especialmente o artístico. Acredito que o Direito tenha me preparado para muitos deles. Ainda assim, uma parte de mim, a mais pequenina e frágil, deságua.

Essa parte espera das artes suspensão e doçura. Há sorrisos sinceros entre artistas, há momentos que guardo em meu peito como recortes sublimes. Mas há egos inflados e desmerecimentos gratuitos. Há pessoas que não aceitam que outros reluzam sua própria luz, que tenham tanta projeção ou mais, que desviem seus holofotes.

Não sou ingênuo: as artes precisam de holofotes, e refrigera o ego ter um livro seu lido, benquisto, bem avaliado. Isso é tão bonito quanto um empresário ver seu produto vendido, um atendente ter seu atendimento elogiado: é você, ao menos uma dimensão sua, sendo acolhido pelo mundo. É o outro lado dessa moeda o que me causa honesto pavor.

(Triste de quem só fala a linguagem do poder sem ter poder nenhum…)

Não há disputa necessária entre artistas que têm público. Para mim, antes, há possibilidades infinitas de parceria. Apresentações transversais, teatro, música, artes visuais… Por onde passo, crio terreno firme para artistas de talento e pessoas de minha afeição. É assim que sigo, é assim que pretendo seguir.

Lembro que terminei O Idiota às lágrimas, por, acima de tudo, me identificar com o pobre protagonista: dono de uma postura cândida e um olhar pastoril sobre a vida, teve sua boa-fé abusada de todos os lados, até não restar nada, nem mesmo sanidade.

A vida nos faz atentos. Escolher quem está dentro e quem está fora é uma virtude que envelhece como vinho. Mesmo assim, cá estou novamente me fazendo a mesma indagação de há duas décadas. Como manter a doçura num mundo cheio de maldades? Como conservar a pureza de coração com os olhos voltados ao mundo?

Créditos da imagem: “Testamentum”, por Konstantin Korobov.

Pedro Pereira de Sousa Neto
Pedro Pereira de Sousa Neto
Advogado, escritor e gestor cultural, foi Ouvidor da Comissão de Arte e Cultura da OAB-PB, sócio da União Brasileira de Escritores na Paraíba e cofundador da Cia Multicultural Art’Spaço. Publicou o romance Dois Sonhos: Primeiro Sonho (Viseu, 2024), desenvolvido com patrocínio do FAC-DF. Em 2025, realizou em Santa Rita a palestra de formação literária Entre Sonhos e Realidade, pela PNAB.

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