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Personagens da Saudade

Eu gosto de ler livros volumosos. E pensando sobre isso, cheguei à conclusão de que um dos principais motivos para essa minha predileção é o apego que sinto por cada personagem longamente desenvolvido ao longo de centenas de páginas.

Meu querido amigo Ruan Virginio, já citado aqui anteriormente e agora colunista do Santa Rita em Foco, está lendo As Crônicas de Artur, ou A Trilogia Arturiana, de Bernard Cornwell, composta por três livros: O Rei do Inverno (1995), O Inimigo de Deus (1996) e Excalibur (1997). Narrada por um de seus cavaleiros de Artur, a trilogia conta a trajetória do afamado rei. No entanto, diferentemente de outras obras publicadas sobre o tema, nas quais predomina a fantasia, essa trilogia — bem ao estilo de Cornwell — coloca o mítico monarca em um cenário mais “realista” da Inglaterra pós-romana do século III depois da vinda do Cristo.

Contudo, o livro não abandona os afamados personagens do ciclo arturiano. Em suas páginas, nos deliciamos com a perspicácia de Merlin, com as astúcias de sua aprendiz Nimue, com a valentia de guerreiros como Derfel e Sagramor, com as traições de Lancelot, com as vilanias de Mordred, com o charme e as ardilezas de Guinevere e com as tragédias amorosas de Tristão e Isolda, sem contar, é claro, com a clássica paladinagem do Rei Artur.

Para quem, como eu, gosta de um bom Romance de Cavalaria, este livro é uma delícia. Dessa maneira, quando meu querido Ruan me informou que estava lendo O Rei do Inverno, logo fui invadido por lembranças e sensações da época em que li essa longa e maravilhosa trilogia.

A primeira recordação foi a de minha total imersão. Veio-me à mente que, no período em que virava as páginas desse livro — e ele é um clássico page-turner, no qual o leitor não consegue parar de ler — eu utilizava qualquer tempo vago em minha vida para adentrar em seu mundo, fechando a porta da realidade atrás de mim. Recordei de imediato como foi prazeroso sentar/deitar-me em meu sofá e permanecer lendo horas a fio — com um xicara de café e um pote de biscoito ao meu lado — enquanto “escutava” Derfel narrar divertidamente como Merlin colocou uma horda de saxões invasores para correr utilizando apenas um punhado de cadelas.

A segunda recordação imediata foi a de como os seus personagens eram cativantes. O livro é narrado por um personagem e, desse modo, o autor conduz magistralmente a história que deseja desenvolver ao longo dos anos de vida do narrador. Assim, acompanhamos uma pessoa desde a infância até a velhice, saboreando cada sentimento, cada julgamento e cada momento de sua longa trajetória.

Um ponto interessante é que, no período histórico em que se passa o livro, era comum cuspir constantemente, pois acreditava-se que isso espantava mau-olhado, lundum e maus presságios. Desse modo — sem estar alheio a esse costume — o narrador descreve esse gesto repetidas vezes ao longo das páginas, o que faz com que o leitor, mesmo inconscientemente, adquira ou ao menos sinta essa compulsão. Para mim, como leitor e escritor em formação, esse tipo de absorção revela os traços do trabalho genial do autor.

Logo após essas recordações, veio-me a saudade. E, saudoso, evoquei em minha mente os grandes momentos e passagens do livro, assim como os atos de seus personagens. Senti saudade de poder ouvir mais daquele narrador tão heroico quanto falho e de conhecer, através de suas palavras, várias outras pessoas que me arrebatavam por suas personalidades fartamente construídas.

Embalado por esse sentimento saudosista, fui além e comecei a reviver sentimentos perdidos na memória. Sentimentos que estavam em outras páginas, em outros livros, em outros personagens. Sentimentos que mais pareciam vidas passadas em que conheci, convivi e perdi inúmeros amigos e amigas de jornada, hoje recordados apenas em certos momentos da vida, sejam eles de infortúnio ou de fortuna. Sentimentos que colaboraram, com a ajuda desses amigos fictícios, para a formação do homem que venho me tornando dia após dia. Qual será o nome disso? Ser influenciado e moldado por pessoas que não existem?

Sinto saudade dessas pessoas. Sempre que termino um grande livro — tanto em volume quanto em conteúdo — sinto uma felicidade imensa misturada a uma gigantesca melancolia, como se desse um bom gole em uma cerveja amarga, mas que ao mesmo tempo refresca um dia de calor e torna o mundo leve. Sei que posso retornar às páginas desses livros e, ao relê-los, reconectar-me com essas pessoas. No entanto, certa vez ouvi de um sujeito: “Você nunca deve retornar ao lugar em que foi muito feliz, e, se por acaso retornar, nunca será tão feliz quanto foi na primeira vez em que esteve lá.”

A minha sorte é que há milhares de livros como As Crônicas de Artur. Ainda há milhares de personagens que ainda não foram lidos. E há muito sentimento que precisa ser descoberto para depois, como uma espécie de decantação sentimental e sonhadora, ser transformado e saboreado como a mais doce das saudades.

O Periódico Opinioso do Castelo da Curva do Rio

Trazendo pensamentos, lembranças, informações, entrevistas, comentários, o passado, o presente, o futuro e a narração de casos verídicos, em sua maioria fantasiados, escritos em prosa e verso pelo Segrel Paraibano, Igor Gregório.

Data: Vinte e seis de janeiro de dois mil e vinte e seis

Título: Personagens da Saudade

Fonte da Imagem: Lancelot Brings Guinevere to Arthur, 1902

Igor Gregório
Igor Gregório
Nasceu na Parahyba. Escritor por vocação, já publicou vinte e um Folhetos de Cordéis, chegando a ser contemplado com premiações estaduais. Em 2023 publicou seu primeiro de livro de poemas: Alma-de-Gato no Voo da Alvorada. Além do trabalho impresso, tem uma produção ativa nas redes sociais, colunas e em saraus.

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