Talvez vários de nós, nordestinos, tenhamos uma lembrança em comum: Colocar a nossa roupa nova, a melhor de todas, a roupa de domingo, para ir à missa! Bom, eu tinha a minha. E durante toda a minha infância, residindo na cidade de Bayeux, eu a colocava e acompanhava a minha avó nas celebrações acontecidas na igrejinha de bairro dedicada ao padre jesuíta, beatificado santo, São José de Anchieta.
Esse fato estilístico, ocasionado mais pela falta de dinheiro de poder comprar várias roupas do que por qualquer outra coisa, marcava a minha semana rotineira de moleque que vivia na grande periferia pessoense que é, e sempre será, a cidade de Bayeux. Ao pensar sobre isso, acabei percebendo como as mudanças das nossas vidas, por vezes, são tão gradativas que não nos damos conta. Hoje não tenho mais uma roupa de domingo. E claro, isso não é pelo fato de eu ter enricado, longe disso, mas pelo simples fato de eu não precisar de um evento especial para andar bem-vestido.
E a partir dessa sorrateira mudança, comecei a refletir sobre as grandes mudanças ocorridas em minha vida. Comecei a passar tudo em linha, desde lá da infância até os dias de atuais e percebi como aquele menino mudou. No entanto, uma coisa não mudou: o interesse pela Beleza do mundo! Eu sempre adorei me arrumar e me ver “bonito”. E, indo além, na pele daquele garotinho sentado no banco de madeira daquela igrejinha, eu buscava a Beleza além da minha tola vaidade e observava admirado o terço de pedras arroxeadamente brilhantes nas mãos de minha avó reluzindo o lume fraco das velas que circundavam o ambiente enquanto inúmeras senhoras e senhores entoavam seus cânticos religiosos em melodias que varavam o tempo e as nossas vidas.
Uma dessas melodias adentrou debaixo da pele daquele infante e sempre que a escuto, e até agora mesmo enquanto a escrevo, sinto um arrepio percorrer meu corpo:
“Da cepa brotou a rama
Da rama brotou a flor
Da flor nasceu Maria
De Maria, o Salvador”
Aquele pirralho, que era obrigado a permanecer no banco da primeira fileira ao lado de sua avó enquanto todas as outras crianças brincavam do lado de fora da igrejinha, ouvia estes versos, tão familiarmente novos e fortes, sem entender o porquê de ficar tão impressionado com palavras como Cepa, Rama, Flor, Maria, Salvador.
Já adulto, descobri os motivos desta perturbação: Estes são versos populares portugueses com melodia mourisca que adentraram nos rincões do Nordeste carregados, através dos séculos, na boca do meu povo; e estes são versos tão atemporais em minha vida, que hoje conversam perfeitamente com a responsabilidade que fulge a cada amanhecer depois do nascimento da minha rama, do meu filho.
Hoje em dia não vou mais à igreja. Já paguei minha cota na infância! Encontro a Beleza em outras paragens e passagens igualmente poéticas. Não por falta de interesse religioso, pois, sendo imodesto, acho que hoje estudo muito mais a história das religiões e chego a ler a bíblia católica bem mais do que muito “cristão” que vaga por aí. Porém, esse estudo é direcionado exclusivamente para a minha escrita. Não que eu não possua a minha fé, não é isso! Mas é que aquele pirralho expandiu sua visão do Belo, do Divino e do Sagrado para além do rito católico.
Nesta última semana concluí dois livros (eu escrevi esse texto em janeiro de 2026): Dois Sonhos: Primeiro Sonho (2025) do autor paraibano Pedro Pereira de Sousa Neto e Torto Arado (2019) do autor baiano Itamar Vieira Júnior. O primeiro narra a trajetória sofrida de um menino da década de 1960 que passou por uns perrengues danados ao perder seus pais. O livro se passa, em grande parte, dentro de um internato onde o nosso protagonista, Isac, tenta entender o mundo que o cerca se alimentando das migalhas sentimentais que lhe são dadas. O trabalho de Pedro é muito bem escrito e podemos ver claramente toda a sua instrução ao elaborar uma narrativa que é fluida sem deixar de utilizar todas as funções possíveis da ferramenta que chamam de Palavra!

E estas mesmas palavras ganham forma quando Pedro intercala os eventos físicos relacionados ao livro (lançamentos e afins) com encenações teatrais de cenas retiradas do próprio livro. Na primeira vez que presenciei tais encenações, confesso, não captei todo o poder textual embutido em seus atos. No entanto, após concluir a leitura, assisti outra apresentação, com a mediação espetacular do autor, e aí sim vi toda a potência das suas palavras ganhando vida nos corpos dos atores. E tá-dá! Novamente lá estava ela, a Beleza, sendo edificada por artistas em uma quadra (dessa vez esportiva, mas não menos poética) de um centro comunitário da cidade de Santa Rita. Que experiência! Saí de lá radiante ao ver a literatura e as artes cênicas pulsando em solo paraibano. Ao meu querido Pedro, afirmo que estou ansioso pela continuação da sua obra e que pode contar comigo em sua bela caminhada.
Já na segunda leitura concluída, por insistência de meu querido amigo Ruan Virginio, me deparei com um livro difícil. E essa dificuldade não está em absoluto relacionada ao texto do autor baiano, que é limpo, poético e muito bem conduzido, mas sim à minha preferência de leitor. No entanto, como afirmei, fui impelido e, para minha felicidade, ao chegar às últimas páginas da obra, me deparei com sentimentos verdadeiros e inesperados a partir da descrição da morte de alguns personagens. J.R.R. Tolkien (para não esquecer o meu “pai nosso”) disse em uma entrevista que toda boa história, incluindo as deles, era sobre a morte!

E realmente, quando a morte acontece no livro de Itamar, ela vem carregada de um sentimento que desperta o leitor, bom, pelo menos me despertou, tendo em vista que, para mim, a leitura estava, vamos pôr dessa maneira, “obrigatória”. Me peguei sofrendo com os personagens, mergulhando em suas angústias e, por vezes, vi quão poderosa é a Literatura, até mesmo quando não acreditamos que ela seja. Torto Arado me trouxe ensinamentos práticos, como saber o que é uma Entidade do Jaré, no entanto me trouxe vários outros aprendizados como um leitor que precisa abrir seus horizontes. Assim como a vida e a morte, a literatura tem o poder didático. E eu serei sempre seu aluno!
Ainda nesta última semana assisti a alguns filmes e, como na literatura, acabei abraçando outra forma de Beleza. O primeiro, The Banshees of Inisherin (2022), conta a história de como um homem dos sertões irlandeses é surpreendido pela recusa de seu melhor amigo em continuar sendo, justamente, o seu melhor amigo. Todo o filme se desenrola em torno disso: O separado e o separador e as consequências do ato de separação. Outra vez fui captado pelos enredos desta última semana nos quais os personagens parecem querer me passar alguma mensagem oculta. Pois, buscando o que passo agora, me vejo como os amigos dessa história que é, ao mesmo tempo, engraçada e mórbida, como tudo que passamos de ruim na vida eventualmente acaba se tornando.

Alguns outros filmes, que talvez valham comentários posteriores, também ganharam a minha tela nessa última semana, mas para encurtar, visto que já me alonguei por demais, destaco o ‘filme do momento’ do meu filho Joaquim: WALL-E (2008), que já assisti completo e em pedaços cerca de dez vezes.
No começo desse filme somos apresentados ao simpático robô pelo som de uma canção singela que, no decorrer do filme do WALL-E, descobrimos fazer parte de um antigo musical. Os dois filmes, o que assistimos e o que está dentro dele, se entrelaçam em uma dança conquistadora. Ao pesquisar sobre este musical entendi que se tratava do filme Hello Dolly (1969) protagonizado magistralmente pela grande atriz e cantora Barbra Streisand.

Meu filho que já adorava a música inicial do WALL-E, Put On Your Sunday Clothes (em tradução livre: Ponha a Sua Roupa de Domingo), ficou encantado quando eu coloquei na TV a cena completa do musical. E não só ele, visto que ao assistir a cena, que esta espalhada em pedaços no filme do robô, uma cena colorida, feliz, dançante e cantante, me peguei questionando: “Meu Deus, por que o mundo, a nossa vida, não é dessa maneira, tão alegre e musical?” Como sempre, nesses casos de conversas divinas, o silêncio é a resposta. Mas pensando melhor agora, talvez a resposta esteja latejando nuns versos que escrevi certa vez:
“Me revelando que até
Um pássaro tão liberto
Precisa sentir o chão,
Pra dar valor no coração
A Beleza de um céu aberto”
Hoje não sou mais aquele menino vestido com suas roupas de domingo. Nessa última semana começou efetivamente meu processo de divórcio. Estou sentindo o chão. Foi uma semana bem difícil. No entanto, hoje, eu preciso chegar ao “domingo” bem-vestido! Em meio ao turbilhão de sentimentos que explodem agora em minha mente, procurei a arte para me salvar. Para que ela, a arte, me confirme que ainda há a Beleza no mundo e que nada está perdido, visto que suas veias encantadoras estão vibrando num adolescente preso num internato, numa entidade do Jarê, em dois amigos irlandeses, num robô abandonado e num pirralhinho chamado Joaquim que presenteia o seu pai todos os dias com a mesma inocência que o seu velho perdeu há muitos e muitos anos.
“Coloque suas roupas de domingo quando você se sentir triste!
Siga pela rua e tire uma foto sua.
Vestido como um sonho, você verá seus sentimentos rodopiarem!
Este domingo iluminado é um sinal
De que você pode se sentir melhor!”
Trecho, em tradução livre, da canção Put Your Sunday Clothes, Hello, Dolly! (1969)
(Assistam a parte dois no Youtube)
O Periódico Opinioso do Castelo da Curva do Rio
Trazendo pensamentos, lembranças, informações, entrevistas, comentários, o passado, o presente, o futuro e a narração de casos verídicos, em sua maioria fantasiados, escritos em prosa e verso pelo Segrel Paraibano, Igor Gregório.
Data: Vinte e seis de janeiro de dois mil e vinte e seis
Título: Ponha a Sua Roupa de Domingo
