Nesses dias chuvosos não se tem muito que fazer, a não ser criar uma programação para dentro de casa, resolvi assistir ao documentário sobre o filósofo Foucault. Foi exatamente este trecho “transforme sua vida em uma obra de arte” que me chamou atenção para escrever esta crônica que não queria nascer, embora seu embrião já estivesse em minha memória. A frase do intelectual francês serviu como abertura para o nascimento deste texto.

Lembrei-me de imediato do documentário da Madonna, onde, no camarim, ela pergunta a alguém que está ao seu lado: “Você gosta de ver arte?” A pessoa responde que sim. Ela retruca “Eu gosto de ser arte”. A vida é uma arte? A arte imita a vida ou algumas pessoas fazem de sua vida uma arte?

Por que comparar a vida com uma obra de arte? Acredito que a obra de arte demore muito tempo para ser composta, concretizada e servida para admiração. Assim deve ser nossa vivência, uma arte aperfeiçoada para então sermos verdadeiramente livres, já que a liberdade de pensamento e comportamento era um dos temas deste filósofo.

Não tenho intenção de aprofundar nessas questões filosóficas, mas sim de questionarmo-nos sobre a importância da arte. Para que serve a arte? De uma coisa é certa: não serve para gerar votos, pois ela é sempre vista de maneira secundária na política e, consequentemente, na sociedade brasileira. (Prometo aprofunda-me nesta questão em outro momento)

Para a escritora Martha Medeiros ela serve “para nada especial, apenas para espantar o tédio, para inspirar loucuras, lembrar que as coisas não precisam ser sempre iguais (…) para evitar repetições, para interromper um hábito, para provocar um estranhamento, para resgatá-lo do inferno que é viver todo santo dia sem nenhum assombro, sem nenhum encantamento”. Deixa-me ver se compreendi: a arte serve para nos retirar da rotina e nos inspirar novas ideias sobre a realidade. Boa definição!

Quando entrevistei o teatrólogo Ivonaldo Rodrigues que, há 30 anos encena a Paixão de Cristo em Santa Rita, ele me falou em outras palavras que a arte é e está no belo, na plasticidade, ou seja, na transformação da matéria, do real em outra percepção, mesmo que a história seja há milênios repetida, como a Paixão de Cristo que, segundo ele “é a história do Sagrado, mas relacionada à plasticidade, senão, não seria arte, seria igreja, fé”.

A arte serve para trazer beleza, cores, sonhos. Será que se vive de sonho? Há lugar no mundo para a estética, para as cores e sonhos quase surreais? Será esta a função da arte? Há lugar para a arte no mundo pós-moderno, industrializado e informatizado? Estes mesmos questionamentos foram feitos ao professor de poesia da Universidade Oxford, Mathew Arnold, durante o século XIX, – tempo este que via o processo acelerado do crescimento tecnológico e industrial. As críticas às artes foram tantas que o cátedra resolveu respondê-las em seu livro Culture and Anarchy, de 1869. Para ele, o trabalho de qualquer artista é “pelo desejo de eliminar o erro humano, esclarecer a confusão humana e diminuir a desgraça humana (…) quase sempre haverá um protesto contra o estado das coisas e um esforço para corrigir nosso discernimento ou nos educar a dor ou inflamar nossas sensibilidades, alimentar nossa capacidade de empatia, reequilibrar a tristeza ou o riso”, mais adiante em sua obra ele traz a resposta que eu buscava: a arte serve como “a crítica da vida”.

Em suma, percebo que a arte não é só a beleza, a estética, o glamour, os holofotes e aplausos. A arte é um ato de amor à sociedade na busca de aperfeiçoá-la por meio da crítica, seja bem humorada ou dramática. Por este motivo, incompreendida muitas vezes.

Livros que foram pesquisados para inspiração desta crônica:

Desejos de Status de Alain de Botton (Filosofia)

Doidas e Santas de Martha Medeiros (Crônica)

Conto 81 (fragmento) de Ezra Poud (Poesia)

 

Documentário:

Pensadores e a Educação – Michel Foucault

Na Cama com Madonna

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