Chegamos ao fim de um ano quase sem fim, pois toda a população desejava que findasse a exposição de lixos que decorava a cidade com sua poluição visual e fedentina. No Império romano se contava o tempo pelos anos do governo de cada administrador o que eles chamavam de Era, se ainda fosse assim, poderíamos dizer: “chegamos ao fim da Era de Netinho, ou chegamos ao fim da Era do lixo.”

O município de Santa Rita viveu o seu maior descaso administrativo, onde os serviços públicos básicos não foram realizados, como a coleta de lixo e a falta de pagamento dos salários dos servidores públicos.

Tudo isso me remeteu ao encantador livro que estava lendo do historiador Azemar dos Santos Sares Júnior Corpos Hígidos: o limpo e o sujo na Paraíba (1912-1924), onde há um capítulo inteiro falando sobre a importância e a atuação do médico e político Dr. Flávio Maroja, que lutou pela higienização e pela saúde pública no estado da Paraíba, onde foi vice-governador, na época, chamado de vice-presidente.

Flavio Ferreira da Silva Maroja foi pioneiro no estudo das questões médicas sanitárias na Paraíba. Iniciou seu curso de Medicina em Salvador, em 1883, e concluiu na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em 1888. Um ano depois de sua formatura, ocupou o cargo de Intendente Municipal na Capital da Paraíba. Durante a mudança de Império para República (1889) foi escolhido dentre os deputados para participar da votação da Constituição. Atuou como presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Paraíba (IHGP); fez concurso para o Exército, na área de Saúde, em 1890. Um ano depois foi promovido a Capitão e destinado para o estado de Goiás, assumindo a Enfermaria Militar. Depois de três anos de atuação, por motivos de saúde, obteve a demissão do Exército por incapacidade física, voltando assim para Paraíba, onde dedicou-se a clinicar.

Na cidade de João Pessoa ocupou cargos administrativos no Hospital Santa Isabel, no IHGP e na Sociedade Médica, mas foi na saúde pública que se destacou como um político atuante. Segundo o historiador Azemar Júnior, o destaque do Dr. Flávio Maroja vem no “momento em que uma série de epidemias – a varíola, a peste bubônica – assolavam a população paraibana”. Neste momento o Dr. atuava como médico do posto, ele propôs a criação do Instituto Vaccinogênico, ou seja, um instituto voltado para a vacinação.

O que diria Dr. Flávio Maroja se visse este atraso em que nossa cidade está vivenciando; ele que também teve seu filho como prefeito aqui, em Santa Rita, entre os anos de 1947 a 1951. O Dr. Flávio Maroja Filho construiu um posto médico em Bayeux, que na época pertencia a cidade de Santa Rita, concluiu o mercado público e a Praça Getúlio Vargas; obras iniciadas pelo seu antecessor Diógenes Chianca. Não teve uma atuação tão importante quanto seu pai teve para a história do Estado da Paraíba, mas deixou seu legado.

Dr. Flavio Ferreira da Silva Maroja foi um homem visionário e de atuação assídua na luta pela higienização e nos cuidados com a saúde pública. Acredito que não precisa, necessariamente, ser um médico para compreender os malefícios que o acúmulo de lixo traz à saúde dos moradores. Tenho em mim que não precisa ser formado para entender de administração pública, entretanto, o ideal seria que todos que ocupassem este cargo de servidor público tivessem formação acadêmica, para entender as necessidades e direitos de cada cidadão.

O questionamento que sempre me faço é: de que forma você deseja ser lembrado? Ao tratar do médico e político Dr. Flávio Maroja, o historiador Azemar Júnior diz que “Os relatos encontrados sobre o médico são os melhores possíveis, em se tratando de sua personalidade política ou profissional” (p.114)

Em algumas citações de contemporâneos do Flávio Maroja e de historiadores que pesquisaram sobre atuação dele, os relatos sempre são bons. É o que percebi ao ler Corpos Hígidos. O que dirão os futuros historiadores sobre a Era do lixo em Santa Rita? De tudo isso, podemos tirar várias lições, uma delas é sobre a nossa responsabilidade com o planeta, pois pela primeira vez ficou evidente e exposto o quanto produzimos de lixo, a outra lição é o quanto o poder público é omisso na questão de coleta seletiva e reciclagem.

Há soluções para o planeta; há soluções para cidade de Santa Rita.

 

Siéllysson Francisco da Silva

É autor de “Santa Rita: a herança cristã do Real ao Cumbe”, entre outros livros.

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