25 C
Santa Rita
segunda-feira, 28 setembro , 2020

A PRIMEIRA FÁBRICA DE CIMENTO DA AMÉRICA LATINA FOI EM SANTA RITA?

-

- Publicidade -

A cidade de Santa Rita contém três ilhas fluviais, são elas: Ilha da Restinga, Stuart e Tiriri: Nesta última, foi edificada a primeira fábrica de cimento Portland da América Latina, no ano de 1890, um ano depois da Proclamação da República no Brasil.

A Paraíba, rica em jazidas de calcário, impressionou o engenheiro André Rebouças, ainda no Brasil imperial, mais precisamente no ano de 1864, quando visitou o estado. Embora, a primeira fábrica de cimento feita na América latina tenha sido na cidade do Rosário, na Argentina, o tipo de cimento produzido lá era estilo romano e não Mesoportland (Portland). Em termo de cimento Portland Tiriri, foi a fábrica construída em Santa Rita foi a primeira da América Latina.

Em 1890, ano da edificação desta primeira fábrica de cimento do Brasil, o português Antônio Varandas de Carvalho e o inglês, Jordan Stuart, andavam pela Ilha de Tiriri e perceberam que a lama em seu varapau secava com rapidez, também apresentava consistência e boa qualidade de argamassa. Neste mesmo ano, a Ilha de Tiriri tornara-se o palco da construção da fábrica que fora concluída em 1892, pelo engenheiro gaúcho Luiz Felipe da Nóbrega, inaugurada neste mesmo ano, onde produziu o cimento Portland.

Na reforma do Theatro Santa Roza, edificação do último presidente estadual da Paraíba, Francisco da Gama e Silva, foi refeita parte dela com o cimento Portland produzido aqui na Ilha de Tiriri, esclarece o Doutor Alysson M. D. Medeiros, “O teatro Santa Rosa foi erguido antes da construção da fábrica, portanto não foi feito com o cimento de Tiriri, mas de fato teve algum trecho reparado ou construído com este cimento, durante o funcionamento da fábrica.”

Segundo alguns artigos disponíveis na internet a fábrica forneceu cimento para várias capitais do Nordeste, Centro-Sul do país, assim como, para países da América Latina e da Europa. Porém, o pesquisador Alysson Medeiros, em sua tese de doutorado pelo Centro de Tecnologia da UFPB, provou que “a produção de Tiriri foi pequena, no máximo para Paraíba e Pernambuco, não foi para todo nordeste, nem América Latina, muito menos Europa”. Erro que reproduzi em meu vídeo sobre a fábrica e retifico aqui, após contato com o trabalho do Dr. Alysson Medeiros.

Esse cimento era transportado de navio em barris de madeiras iguais às de produtos como: uísque, rum e vinho. Segundo Alysson D. M. Medeiros, que teve como objeto de sua tese a primeira fábrica de cimento da América Latina Portland, encontrou em sua investigação na área da Ilha de Tiriri, uma peça de cimento hidratado em formato de barril com 128 anos, que hoje encontra-se no Centro de Tecnologia da UFPB resguardada para estudos. Em sua pesquisa utilizou diferentes técnicas de caracterização micro-estrutural, analisadas nos laboratórios da UFPB, por fluorescência e difração de raios X.

A fábrica teve duração de seis meses e produziu toneladas de cimento utilizando uma estrutura arrojada para a época, segundo Élcio Siqueira (2001). Há diversas explicações para o fechamento dela, desde a impossibilidade de concorrer com o cimento importado, ao alto custo do produto feita na Ilha de Tiriri, que produzia em pequena escala para exportar para mercados muito distantes da Zona de produção.

Segundo Celso Mariz, em seu livro “Evolução econômica da Paraíba” de 1978, a questão da Ilha Tiriri se tornou uma contenda judicial no fim do século XIX entre a Companhia de Cimento Portland, sediada no Rio de Janeiro, o proprietário da fábrica de Tiriri e o governo da Paraíba. A Companhia exigia indenização pelos estudos do solo e pela construção da fábrica que terminou sendo depredada por moradores locais, levando portas, janelas, telhado e maquinário.

A importância dessas ruínas que ficam em uma ilha particular aqui em Santa Rita, é de suma importância para a história industrial do Brasil, entretanto, essas não são tombadas.

 

REFERÊNCIAS:

CAVALCANTI, Filho, Ivan, Carlos Azevedo, Tarciso Silva, Antonio Leal, Sandro Torres, Jefferson Oliveira and Yanna Silva. “Tiriri, a 1ª fábrica de Cimento da América do Sul.” XIII Encontro da Sociedade Brasileira de Pesquisa em Materiais, João Pessoa, Brasil, 28 de setembro a 2 de outubro de 2014.

A tese de Alysson M. D. Medeiros disponível no endereço abaixo:

https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/123456789/15285

https://www.researchgate.net/publication/335986239_O_CIMENTO_PORTLAND_DO_SECULO_XIX_E_AS_RUINAS_QUE_TESTEMUNHAM_O_PIONEIRISMO_BRASILEIRO_NA_INDUSTRIA_CIMENTEIRA_DA_AMERICA_LATINA

Imagens: Portal Folha do Meio Ambiente.com

- Publicidade -
Avatar
Siéllysson Francisco
Siéllysson Francisco é mestre em Ciências das Religiões, Historiador, Cronista e Poeta.

5 COMENTÁRIOS

  1. O texto muito bem redigido e organizado; mostra através da pesquisa, que a tal fábrica que deveria ser um instrumento importantíssimo de alavancamento econômico da região; foi sumariamente paralisada em decorrência de uma contenda judicial, produzida por elementos que não tinham o menor interesse no desenvolvimento da Paraíba!! E assim sendo, fica óbvio que os interesses que moveram essa confusão criminosa e absurda; foram motivados por alguma tentativa de extorsão de dinheiro contra o proprietário do empreendimento! Tentativa essa, que obviamente era do conhecimento restrito do proprietário e dos sujeitos interessados na contenda! Mas foi tremendamente fatal a existência produtiva do empreendimento… muito lamentável!!! Lembrando que isso aconteceu no final do século XIX… mas ainda hoje essa podridão continua a acontecer em pleno século XXI!! Temos ai os exemplos atuais do Estaleiro de Lucena – que até hoje não conseguiu iniciar sua construção; por contendas do setor público – e mais ainda a expansão do Porto de Cabedelo; também sem inciar, pelos mesmos motivos do Estaleiro!!!

  2. O município de Santa Rita, tem um rico patrimônio histórico e natural, e mesmo com essa riqueza, não se investe nesse conteúdo. Existe no centro da cidade, um edifício histórico já dá modernidade, que é o Clube Tênis , que foi quase totalmente destruído por uma administração municipal, para a instalação de um mercado popular, hoje abandonado para isso irrestrito de situações marginais.

DEIXE UMA RESPOSTA

Digite seu comentário
Digite o seu nome

Laia Também

A quem interessa nossa memória?

Quando morremos não morremos de vez, permanecemos na memória...

Santa Rita cristalizada pelo Sr. Viégas

Seu nome de batismo é Antônio Alves Bezerra. O...

A morte e a melancolia nossa de todo dia

Acordamos e dormimos com notícias sobre o aumento de...

Um bairro para cercar ou libertar?

Durante o século XVIII, muitos comerciantes vinham do sertão...