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A Jurema Sagrada e Sua Luta por Reconhecimento na Paraíba

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A Paraíba está prestes a dar um passo histórico no reconhecimento de sua diversidade cultural e religiosa. A Assembleia Legislativa do Estado aprovou um projeto de lei que busca oficializar a Jurema Sagrada como patrimônio imaterial, consolidando a importância dessa tradição para as comunidades indígenas e afrodescendentes.

A Jurema é mais do que uma manifestação espiritual; ela carrega consigo a resistência dos povos originários, que há séculos enfrentam desafios para preservar suas práticas e crenças. Em cidades como Alhandra e Conde, no Litoral Sul paraibano, a Jurema Sagrada faz parte do dia a dia de muitas famílias, que veem nela um espaço de cura, conexão com os ancestrais e reafirmação identitária.

Mas nem tudo foi fácil no caminho para a aprovação do projeto. Houve resistência por parte de parlamentares conservadores, como Wallber Virgolino e Sargento Neto (PL), que votaram contra, e Tovar Correia Lima (PSDB), que se absteve. A deputada Cida Ramos (PT), autora da proposta, ressaltou que a Jurema é parte da existência dos povos indígenas e de outros grupos que compõem a identidade brasileira, reforçando a importância do respeito à diversidade religiosa.

Agora, o projeto está nas mãos do governador João Azevêdo (PSB), que tem a decisão final sobre sua sanção. Caso seja aprovado, a Jurema será registrada como bem imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), garantindo sua preservação e assegurando que futuras gerações possam conhecer e manter essa tradição viva.

Reconhecer a Jurema como patrimônio é mais do que um gesto simbólico; é um compromisso com a identidade cultural da Paraíba e com o respeito à pluralidade de crenças. Em tempos de intolerância religiosa, dar voz a tradições como essa significa fortalecer a democracia e a coexistência pacífica entre diferentes grupos.

O que acontecerá agora depende de um ato político. Mas a história da Jurema Sagrada mostra que, independentemente da decisão governamental, ela continuará existindo — forte e enraizada — na fé daqueles que a praticam, e a legitimação dessa Lei, favorece a salvaguarda da cultura imaterial paraibana, e proporciona o combate à intolerância religiosa, como também, o acesso dessas comunidades tradicionais às políticas públicas.

História e Ancestralidade Afro-Indígena da Jurema Sagrada

A Jurema Sagrada, é um culto religioso organizado na forma que temos hoje na Paraíba, mais precisamente na cidade de Alhandra, litoral sul do estado, cujos registros mais antigos da sua prática remontam ao período colonial, onde cronistas europeus descreveram as práticas espirituais dos povos indígenas na região Nordeste. Entre os séculos XVI e XVII, os observadores registraram rituais com a jurema, uma planta usada simbolicamente e no ritual, e a fumaça do tabaco. Esses ritos eram vivenciados em transes espirituais e invocação de entidades. Durante o processo de colonização, os registros demonstram a influência dos elementos da religiosidade católica, mais significativamente a catequese dos missionários através das cerimônias.

Essas cerimônias e manifestações eram realizadas diante de imagens de santos católicos, crucifixos e velas em espaços naturais, como grandes árvores ou pedras, considerados sagrados. Através dos séculos, o Catimbó sofreu transformações, adquirindo características das tradições africanas e europeias. Assim, tornou-se um dos sistemas religiosos mais antigos e complexos do Brasil, caracterizado pelo sincretismo e enraizado na cultura popular do Nordeste.

O próprio nome do culto, que antes se chamava “Catimbó”, que é uma derivação de “Catimbau” ou, simplesmente “Cachimbo”, como conhecemos até hoje esse instrumento sacro e litúrgico indígena, de importância tal qual o turíbulo, para algumas religiões cristãs, sofreu modificações, devido a forma pejorativa como ficou sendo tratado devido o racismo estrutural e intolerância religiosa, onde, o termo “Catimbozeiro” era atribuído aos Juremeiros, até os anos 1930 aproximadamente, e seu significado era “aquele que faz uso do cachimbo para cerimônias de cura”, tornou-se alcunha de alguém que praticava malefícios, então, os próprios religiosos foram, com o passar dos anos adotando o nome do culto para “Jurema” ou “Jurema Sagrada” e o praticante para “Juremeiro”.

O Potencial de um Culto Nordestino para o Turismo Étnico-Religioso

Mesmo o Brasil sendo reconhecido mundialmente por sua diversidade religiosa, o culto da Jurema Sagrada, uma das tradições espirituais autóctones mais antigas do Nordeste, ainda é pouco explorada como atrativo para o turismo étnico-religioso — segmento que segue ascensão em estados como a Bahia, onde os terreiros de Candomblé recebem turistas para visitação, e em aldeias indígenas na Amazônia, no Xingu e na própria Paraíba, como no caso das aldeias Potiguaras em Bahia da Traição.

Com uma riqueza simbólica e histórica importante, a Jurema Sagrada permanece marginalizada e muitas vezes estigmatizada — seja por preconceitos religiosos, seja pela ausência de políticas públicas que reconheçam seu valor cultural. No entanto, especialistas e lideranças religiosas começam a vislumbrar seu potencial para o turismo cultural, espiritual e pedagógico que pode ser valorizado com políticas públicas específicas

“A Jurema tem uma mística ancestral, ligada à terra, à espiritualidade e à medicina popular, preservada pelos povos originários. O turista que busca vivências imersivas, como acontece em terreiros da Bahia ou nas aldeias indígenas, encontra aqui uma experiência profunda de reconexão, principalmente à elementos espirituais próprios. É como se sentir em casa, com tudo que de alguma forma lhe é muito familiar”, segundo análise deste jornalista.

Para além da experiência mística, há aspectos que podem ser integrados a roteiros turísticos de base comunitária: a culinária tradicional nordestina presente nos terreiros, a etnomusicalidade dos cânticos sacros , e os saberes botânicos associados às plantas medicinais. Municípios do litoral ao Sertão nordestinos, como João Pessoa (PB), Santa Rita (PB), Campina Grande (PB), Recife (PE), Natal (RN), e regiões do Cariri cearense, possuem comunidades com longa tradição juremeira, capazes de oferecer vivências seguras, respeitosas e culturalmente ricas. O desafio, contudo, está na estruturação desse potencial sem descaracterizar ou comercializar a religiosidade. Experiências bem-sucedidas, como as visitas guiadas a terreiros de Candomblé em Salvador (BA) e São Luís (MA) , mostram que é possível promover turismo religioso com responsabilidade, valorizando o protagonismo das comunidades e respeitando seus limites espirituais.

Com aprovações de Leis de preservação e salvaguarda do patrimônio imaterial, como esta na Paraíba, investimento em capacitação, promoção cultural e políticas de reconhecimento patrimonial, o culto da Jurema Sagrada pode se tornar não apenas um atrativo turístico, mas também uma ferramenta de preservação da identidade nordestina e de valorização das tradições afro-indígenas na Paraíba, no Brasil e no mundo, pois, já existem comunidades celebrando a Jurema Sagrada, nos países Ibéricos e pela América Latina.

Foto: Rony Nascimento

#PraTodosVerem: A imagem em destaque é uma fotografia em preto e branco, do trabalho do fotógrafo Nielson Lourenço, e clique de Rony Nascimento e mostra a Juremeira Mãe Rita Preta, de Santa Rita, PB fumando um cachimbo, símbolo de instrumento religioso da Jurema Sagrada. A foto é em preto e branco, e mostra Mãe Rita, uma mulher preta, retinta, centenária, está retratada dos ombros para cima usando um vestido singelo com flores miúdas estampadas, seu rosto está em perfil, segurando à boca um pequeno cachimbo, na sua cabeça um lenço branco amarrado.

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