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O Homem de Esquerda

Quando Jair Messias Bolsonaro, o fantoche tragicômico da vez, foi eleito em 2018, eu e toda minha patota abraçamos a tristeza. E ela, sentia eu, não era oriunda do que o resultado da eleição acarretaria e acarretou para o Brasil, mas sim por perceber o quanto ainda estávamos afundados, como nação, no atraso e no reacionarismo.

Em conversas com uma colega lembro que cheguei a afirmar na época, em termos de impactos financeiros: “Para mim, como CPF, essa eleição não vai mudar nada. Eu vou continuar minha vida. Eu vou permanecer no meu emprego, ganhando meu salário e andando na rua tranquilamente, pois eu sou um privilegiado de classe média. O problema que escorre desse lixo, vai ser sentido por quem depende das políticas públicas de inclusão!”. Dito e feito! Para não cair mais no buraco do enfadonho, não irei listá-los. No entanto, para quem tem curiosidade, pode clicar aqui e ver em detalhe todos os impactos da gestão bolsonarista.

Hoje, e desde aquele tempo, me considero uma pessoa de Esquerda. Sempre fui? Não! Mas acredito que enxergar as vicissitudes do mundo e escolher um lado pode ser uma percepção adquirida com o passar dos anos. A consequência da minha escolha foi que passei a enxergar o bem coletivo como sendo mais relevante que o bem individual. Simples assim, teorias marxistas à parte. Assim posto, assumindo também meu constante estado de mutação e aprendizado, mantenho o pensamento coletivista em minhas veias desde então.

Dentre dos ideais de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade” propostos na Revolução Francesa de 1789, eu sempre considerei a Igualdade como bastião dos três. Sem Igualdade não há liberdade, pois sempre teremos alguém pagando o preço para o outro ter a liberdade. Sem Igualdade não teremos fraternidade, pois a fraternidade sem a igualdade é somente retórica religiosa. E para mim, esse é um conceito que não fica restrito somente a tentativa de distribuição igualitária das riquezas geradas em uma sociedade, ou ao acesso efetivo e irrestrito do povo à educação, moradia, saúde, segurança e alimentação, ele também passa pelos direitos e deveres de cada indivíduo perante o coletivo, sendo esse último sempre o mais relevante de ambos. A única qualidade que verdadeiramente reconheço em minha personalidade, realizando sempre as mais duras das autocriticas, é conseguir olhar cada ser humano desse planeta como ser humano. Eu consigo entender uma pessoa se colocar acima de outra, em qualquer escopo, mas eu não consigo considerar que ela esteja acima de outra. E aqui quero deixar claro que não sou utópico, é só que acredito que se dentro do meu ser, como indivíduo, é possível essa igualdade, então há a possibilidade de se alterar a realidade que me cerca com efetivas atitudes.

Ciente disso, não haverá nunca, a meu ver, a verdadeira igualdade enquanto o indivíduo lutar somente por determinados tipos de igualdades enquanto ignora as demais. Explico: Um caso emblemático é o dos Empregados Domésticos que, destoando do que diz o artigo 3º da Consolidação das Leis do Trabalho de 1943 (considera-se empregado toda pessoa física que prestar serviços de natureza não eventual a empregador, sob a dependência deste e mediante salário), só foram considerados sob tais conceitos no ano de 2015, mediante a Lei Complementar 150/2015 (PEC das Domésticas) que garantiu jornada de 44h semanais, FGTS, INSS, férias, 13º salário e horas extras. Ou seja, quando, perante a lei, em 1888 houve a abolição do trabalho escravo no Brasil, quando em 1943 houve a consolidação dos direitos trabalhistas e quando em 1988 foi promulgada a Constituição Cidadã vigente, foram excluídos destes os direitos e deveres dos trabalhadores domésticos. Para finalizar esse ponto com outro exemplo: A Lei nº 14.611/2023, sancionada somente no ano de 2023, que estabelece a obrigatoriedade de igualdade salarial entre mulheres e homens que exercem a mesma função ou trabalho de igual valor! Elevadíssimo Leitor, 2023!

Diante disso tudo, questiono: Por que somente em 2015 e 2023 houve a consideração de igualdade nos termos e aplicações das leis? Essa é uma resposta histórica e complexa, mas acredito que passe pela simples ideia de eles não serem, efetivamente, considerados como iguais por uma gigantesca parcela da sociedade, dos mais diversos espectros políticos e de classe.

E este é o ponto que quero debater aqui: A Seletividade na Igualdade! Meu Elevadíssimo Leitor, para contextualizar o que motivou esta coluna, nestas últimas meses dois casos permearam o noticiário nacional: O primeiro foi o espancamento de uma mulher por seu marido, um cantor de certa fama na Paraíba. O segundo caso foi o espancamento e a consequente morte de um cachorro nas ruas de Florianópolis, SC.

O primeiro caso faz parte de um histórico social que, diante da constante resistência e da luta feminina, vem crescendo reaccionariamente no Brasil e em especial no local do fato aqui trazido, a Paraíba, onde os casos de feminicídio em 2025 foram 39% maior que o ano anterior, 2024 (fonte). O segundo, além de todo histórico de desprezo animal, foi tratado como uma causalidade nos noticiários, e acho que até por isso teve um impacto de comoção infinitamente maior do que o primeiro. Afinal, o cachorro, na percepção geral, “não tem como se defender e nem muito menos escolheu a situação em que se encontrava”. Diante destas duas notícias uma percepção me capturou ao observar as consequências: Uma comoção exacerbada sobre o cachorro e um silêncio retumbante sobre o caso da mulher. Porém, minha percepção deste silêncio não se deu só observando o comportamento da nossa sociedade, mas nos círculos de minha convivência, os dos artistas das mais diversas áreas e mais especificamente dos poetas.

Eu participo de algumas redes sociais, onde acompanho, majoritariamente, pessoas do viés da Esquerda, os quais eu me identifico e “curto”! Também participo de inúmeros grupos de whatsapp de poetas que, sempre, estão versando sobre absolutamente tudo. Para aqueles menos familiarizados com a poesia, existe no meio uma forma de versar que são as estrofes de Mote e Glosa, na qual o poeta vai glosando sobre o determinado assunto culminando no mote proposto inicialmente. Exemplo:

Mote:

Um cachorro vale mais
que a Mulher que apanhou.

Glosa:

Nesse mundo invertido
a moral está abalada.
A mulher violentada,
um cachorro agredido.
Nesse cenário sofrido
muita gente lamentou.
Mas eu vi que quem chorou
só chora por animais.
Um cachorro vale mais
que a Mulher que apanhou.

Para deixar claro aqui, não é proibido sentir mais compaixão por um animal do que por um ser humano. É até compreensível. Todavia o problema real, neste caso, não é o indivíduo, é o coletivo. Quando o coletivo se manifesta majoritariamente a favor de um animal ao invés de uma mulher agredida, aí sim temos um problema. E esse problema culmina justamente na percepção da impessoalidade e do sentimento de pose que muitos agressores relatam possuir sobre mulheres que eles violentam ou assassinam. Ou seja, se a mulher não é considerada um ser humano, então podemos fazer o que quiser com ela! Ainda, se um cachorro é mais digno de indignação do que uma mulher, podemos fazer o que quiser com ela! Estou forçando? Talvez não. Os números apresentados da violência contra mulher apoiam as minhas ideias.

Voltando aos poetas: Silêncio! Nenhuma glosa sobre a violência tão noticiada sofrida pela mulher. Várias glosas sobre o cachorro! Outro ponto que vale observar aqui é que a maioria destes poetas são homens, entre quarenta e oitenta anos de idade, brancos, aposentados e finalmente, de esquerda ou pelo menos de viés progressista. Repetindo: ninguém é obrigado a nada, muito menos a se manifestar. Mas, como eu já disse, o silêncio aponta um sintoma.

Já ouvi de um homem: Eu sou de Esquerda, mas não suporto essa Esquerda Identitária. Para aqueles que não estão familiarizados, há vários tipos de Esquerda: Moderada, Radical/Revolucionária, Democrática, Identitária, Trabalhista etc. No caso em questão, o “camarada” rejeitava a Identitária que se caracteriza pela pauta dos direitos civis, minorias, pautas LGBTQIA+ e igualdade de gênero. Ou seja, igualdade dele é seletiva.

Perceba, Elevadíssimo Leitor, para mim, tudo isso é besteira conceitual. Se eu desejo uma sociedade igualitária, em que todos avancem em conjunto, eu não posso diminuir a luta de ninguém. Nesse espectro, todos tem o direito de se manifestar e todos possuem o meu apoio no que concerne ao bem-estar do coletivo. Todos estão comigo na luta por essa sociedade desejada. E é exatamente aí que minha decepção e indignação ganham forma: perante a percepção de que várias pessoas do campo da Esquerda não compartilham deste mesmo pensamento coletivo, de que várias pessoas se indignam e se manifestam mais por um cachorro do que por uma mulher, de que mais vale fazer um verso sobre um cachorro do que um de apoio, mesmo que mínimo, a uma luta milenar contra a opressão do ser feminino.

Em paralelo a isso tudo, estudei dois conceitos: O Hetero Top e o Esquerdo Macho. Ambos são faladíssimos nas redes sociais. E suas definições são: O Hetero Top é o homem que não tem nenhum medo ou receio de exercer seus preconceitos, geralmente identificado como o homem de direita, ou o cidadão de bem. Já o Esquerdo Macho entendeu que poderia ser muito mais eficaz, diante das mulheres, esconder os seus preconceitos numa capa “esquerdista”. A meu ver, analisando quem é pior, a hipocrisia é um câncer.

Depois destes acontecimentos passei a identificar em vários conhecidos da Esquerda este comportamento do Esquerdo Macho e ouvi vários relatos de mulheres que passaram maus bocados nas mãos destes em situações em que o machismo rompeu a “capa”. Um ponto que me chamou atenção nestes relatos femininos é que elas afirmaram que, sempre que confrontados, estes homens dizem que eles não são assim, que machistas são os outros. Elevadíssimo Leitor, nenhum homem em nossa sociedade patriarcal está livre da característica machista. Ela é estrutural. Todos nós somos criados, moldados e vivemos exercendo o machismo, uns com mais intensidade outros com menos. Por esse motivo, se excluir dessa lista torna tudo pior ainda. Quando passamos a negar um traço de nossa criação coletiva, mesmo que ele seja abjeto, não somos capazes de melhorar e evoluir como sociedade equalitária. E como eu disse, o aprendizado tem que ser constante. Sendo assim, eu como uma pessoa que viveu e vive cercado pelo machismo, o máximo que posso é chegar ao primeiro passo de uma realidade onde ele seja expurgado, uma tentativa, visto que, carrego em mim as marcas de uma criação machista. Diferente do meu filho que pode, a partir da minha experiência e ensinamentos, ser um homem efetivamente desprovido de machismos, mas que mesmo assim ainda pode estar cercado e combatendo os seus resquícios na sociedade.

Para findar, sem querer concluir nada e sem querer nada além do que expor uma percepção, uma revolta, eu reafirmo que não haverá igualdade nesse mundo enquanto não enxergamos a dor do outro como sendo nossa. É clara, para mim, a percepção de que a omissão é uma forma efetiva de apoio. Pela última vez, ninguém é obrigado a se manifestar sobre a violência contra a mulher, mas vale lembrar que todos também arcam com as consequências de seus NÃO atos!

O Periódico Opinioso do Castelo da Curva do Rio

Trazendo pensamentos, lembranças, informações, entrevistas, comentários, o passado, o presente, o futuro e a narração de casos verídicos, em sua maioria fantasiados, escritos em prosa e verso pelo Segrel Paraibano, Igor Gregório.

Data: Cinco de abril de dois mil e vinte e seis

Título: O Homem de Esquerda

Imagem de capa: Operário e Mulher Kolkosiana (1937), Vera Mukhina

A Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180 é um serviço de utilidade pública essencial para o enfrentamento à violência contra as mulheres. A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.

Igor Gregório
Igor Gregório
Nasceu na Parahyba. Escritor por vocação, já publicou vinte e um Folhetos de Cordéis, chegando a ser contemplado com premiações estaduais. Em 2023 publicou seu primeiro de livro de poemas: Alma-de-Gato no Voo da Alvorada. Além do trabalho impresso, tem uma produção ativa nas redes sociais, colunas e em saraus.

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