O Periódico Opinioso do Castelo da Curva do Rio
Trazendo pensamentos, lembranças, informações, entrevistas, comentários, o passado, o presente, o futuro e a narração de casos verídicos, em sua maioria fantasiados, escritos em prosa e verso pelo Segrel Paraibano Igor Gregório
Data: Quatro de abril de dois mil e vinte cinco
Título: O Viralatismo
Desde que me entendo por gente, quando tudo ainda era muito nebuloso e meu arquivo mental ainda era bastante incipiente, que eu tenho um orgulho danado de ser brasileiro. Dois eventos contribuíram muito para, logo muito cedo, aos sete anos de idade, eu ter este sentimento de pertencimento em meu coração. O primeiro evento foi a morte de Ayrton Senna, no dia de meu batizado, o segundo foi o tetracampeonato da Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo de 1994. Ambos os eventos geraram grande comoção nacional e mostraram, para aquele menino, o que é ser brasileiro.
Hoje, confesso que não sou um admirador da figura de Ayrton Senna, apesar de lhe considerar um grande piloto e um grande brasileiro. Também confesso que já deixei o futebol de lado há bastante tempo. Porém, o sentimento de orgulho e pertencimento que tenho pelo meu país segue inalterado. Amo hoje o meu país e seu povo, pelos mesmos motivos que aquele garoto de sete anos de idade amava: Pela festa, pela alegria, pelo seu colorido, pelo jeito único de celebrar e enfrentar as dificuldades sociais impostas, pela sua resiliência e principalmente pela sua diversidade e a sua criatividade!
Depois, já mais velho, fui tomando mais consciência e meu arquivo de informações mentais foi sendo preenchido com a dura realidade que se apresentava para mim e para milhões de brasileiros: A miséria, a pobreza, o abandono social, a violência e todas as maculas que um país pode carregar. Observando tudo isso e confrontando com o sentimento de pertencimento que latejava internamente, vi que este último não se alterara, e o motivo dessa inalteração seria a pronta percepção de que todos os países, seja ele qual for, possui os seus defeitos e virtudes assim como nosso grande Brasil possui.
Dessa maneira, no decorrer da minha vida, eu sempre tive a percepção clara da beleza que é ser brasileiro. Logicamente, algumas belezas eu percebia mais do que outras, e muita coisa valiosa, no campo da cultura brasileira, eu só vim dar valor já bem mais velho. Mas por ter esta latente percepção, desde muito cedo eu sempre me entreguei a tudo que esse país, alegre e diverso, me oferecia.
Eu sou oriundo de uma família de classe média baixa, e sempre tive a oportunidade e privilégio de brincar nos festejos juninos, no carnaval, em aniversários regados à música nacional de primeira qualidade, principalmente a do meu lugar, o Nordeste. Eu tive o privilégio de nascer numa terra repleta de monarcas: A Rainha do Xaxado, o Rei do Baião, O Rei do Ritmo, o Rei e a Rainha do Cangaço etc. Eu tive o privilégio de conhecer desde sempre, e me ver como conterrâneo, dos dois maiores poetas brasileiros, Augusto dos Anjos e Leandro Gomes de Barros. Eu tive o privilégio de viver uma infância feliz: de brincar na rua, de comer frutas deliciosas direto das árvores, de ter uma avó que produzia a melhor comida do mundo e de viajar e conhecer bem o meu lugar de origem!
Hoje continuo um adulto de classe média que trabalha numa empresa repleta de funcionários que também pertencem a esta mesma classe social. Hoje convivo com muito mais pessoas do que convivi no decorrer da minha vida. Nesta empresa trabalho em uma sala, oito horas por dia, com mais cinquenta pessoas. Nesta sala escuto histórias maravilhosas de pessoas, em sua maioria, interessantes e inteligentes. No entanto, nesta mesma sala, eu também escuto os maiores absurdos. E um destes absurdos, que na verdade é recorrente, é o viralatismo! Este sintoma viralatesco se caracteriza por “tudo que é de fora é bom e tudo que é do Brasil é ruim”, e por sua vez, essa enfermidade é oriunda de uma profunda doença chamada colonização!
O viralatismo é sempre proferido por um vira-latas, que longe de ser gentil, humilde e simpático, semelhante ao ser canino que deu origem a esse termo, é, em seus modos, exatamente oposto: agressivo, reacionário, soberbo e profundamente infeliz. É agressivo porque sempre tem opiniões ofensivas sobre tudo que é relacionado ao Brasil, por exemplo (eu escutei isso de uma pessoa de classe média): “Ir pro carnaval? Quem vai pra esse carnaval é pobre e turista que não tem noção! Eu não gosto disso não, é muita mudiça”. Tudo certo não gostar de carnaval, mas não precisa ser um escroto. O vira-latas é sempre um reacionário porque sempre vem com opiniões do tipo, ou variações extremistas semelhantes (eu escutei isso): “Por mim, prendia e jogava a chave fora. Por mim, bandido tem que morrer. Bom é lá nos EUA que tem cadeira elétrica e prisão perpétua”! Essa é clássica. O vira-latas é sempre soberbo porque não se enxerga como brasileiro, e faz de tudo, de tudo mesmo, desde as roupas até o jeito de falar, para não se parecer com um brasileiro, um exemplo dentre vários (eu escutei isso): “Rapaz, a gente tem que ser sincero, os produtos brasileiros não prestam. Você compra uma camisa no outro dia está bufenta. Olhe, comprei essa camisa importada aqui e faz anos que tenho. Fora as outras coisas que tenho e, que quando eu comparo com as daqui, sinto até vergonha de ser brasileiro”. E por fim, o viralatista é sempre um infeliz porque não pertence a lugar nenhum. E por causa da sua profunda infelicidade ele vai votando em quem também odeia o Brasil, e elegendo pessoas que entregam sempre nosso país de mão beijada a qualquer outro país que, o vira-latas, considere melhor que a nossa nação.
E é aí que é está o verdadeiro problema de ser um vira-latas! Esse tipo de vira-latas não é inofensivo. Se ele ficasse somente latindo na sala de uma empresa, tudo bem! Mas ele vota e elege o primeiro entreguista que encontra. E consequentemente, aos poucos, este país tão rico vai sendo dominado economicamente e principalmente culturalmente por outros países. Pois, quando se usa a cultura como sistema de dominação, sendo ela mais eficaz que tanques e soldados, se domina a alma de um povo. Mas o pior ao constatar isso, é ver o próprio brasileiro, que deveria ter um amor nacional em si, vender e entregar a sua alma ao capeta.
É duro ouvir as pessoas, que no viés da nacionalidade são seus irmãos, difamarem constantemente a sua mãe. Todavia, há luz! Calma, há luz! Neste vasto e belo país há brasileiros que amam e protegem a sua terra, a sua cultura, os seus irmãos e a sua mãe gentil. E esse é o único e verdadeiro motivo de ainda não termos sucumbido de vez, como país, ao viralatismo: A Resistência!
Resistir não é uma opção, é um dever de cada um de nós que temos consciência de nosso pertencimento. Sei que é repetitivo e piegas tudo que eu disse até aqui. Mas é preciso afirmar e reafirmar tudo categoricamente. E, principalmente, vale repetir para aquele menino de sete anos, deslumbrado, que mora dentro do meu coração e que hoje tenta ser escritor: O Brasil vale a pena, o Brasil vale a tua pena!
