Em setembro de 2024, um fragmento de flecha datado de 1880 foi encontrado alojado no pescoço de uma baleia-da-groenlândia. Biólogos calculam que o animal tenha cerca de 130 anos, o que não os surpreende, porque é uma espécie que pode chegar a 200. É muito tempo. Mais de sete vezes a minha idade. Mais que o dobro do que viveram minhas avós. Quatro vezes a idade desta casa, metade da idade desta cidade e um terço da idade deste país. Outras espécies de baleia podem chegar a 180 toneladas, é o peso de um avião vazio, suficiente para transladar 250 pessoas. Seu coração tem o tamanho de um carro pequeno, como o que eu uso para observar a cidade nos fins de tarde de domingo.
Uma baleia nos coloca no nosso lugar de pequenos seres, parte minúscula de um todo. As baleias percorrem 20.000km de oceano com o mesmo costume com o qual eu ocupo este jardim. Se alimentam, em um dia, com o que seria suficiente para alimentar todo o meu bairro. Além disso, ao emergir para respirar, as baleias liberam nutrientes suficientes para sustentar ecossistemas inteiros, e ao morrer, levam consigo ao fundo do oceano 30 toneladas de gás carbônico, estabilizando o clima da Terra.
São criaturas místicas e misteriosas que fecundaram a imaginação de poetas e contadores de história desde que pela primeira vez se deixaram perceber aos nossos olhos curiosos. Fascinantes em forma, em som, e em como protegem, amados, seus filhotes de 7 metros. Em seu último álbum, numa canção chamada “A Baleia”, Flaira Ferro canta esta grandeza: “uma baleia e uma cidade/ que tem a idade de ser uma baleia/ a proporção e a disparidade/ do bicho grande ao bicho grão de areia”.
Compreendo esses poetas maravilhados. Herman Melville, em Moby Dick, escreveu um livro inteiro de amor aos mistérios do mar e destas criaturas. Matilde Campilho menciona a forma do sol a incidir sobre um mamífero amadeirado em Lisboa. Robert Wyland, um artista americano, passa a vida a pintar grandes baleias em murais pelo mundo. É um grande ego nosso, de entendermo-nos donos do mundo. Colocamos os pés no mar sem pedir licença, como se tivéssemos direito em desafiar sua força. Construímos grandes plataformas, navios e estruturas para tentar mascarar nosso tamanho pífio. Queremos controlar o que é astronomicamente maior que nós, mas, frequentemente perdemos o controle dos nossos próprios minúsculos órgãos. Enquanto isso, sem necessidade de controle, uma baleia segue seu curso. Mesmo grande, sabe que é parte de um todo, e que a natureza conhece o caminho. Não quer ocupar nenhum outro espaço que não o seu, não sofre psicoses, não carrega culpas, dorme em paz.
