Aos fins de tarde de domingo, quando o trânsito está tranquilo e a cidade silenciosa, costumo sair. Frequentemente, contradizendo as normas, não tenho nenhum ingresso para o teatro, e nem marquei de encontrar nenhum amigo. Não estou a caminho de nenhuma festa e não hei de visitar ninguém. Na verdade, hei de visitar, sim, alguém. Há uma grandiosa amiga que nunca me deixa só e a quem procuro retribuir a companhia, embora ela não precise: a cidade.
A todos os lugares que vou, a cidade está sempre ao meu redor. Um organismo vivo, quase que como uma entidade, a prever cada um dos meus passos e palavras. Onde quer que eu esteja a dizer meu nome, escutam primeiro o nome dela. É quem dita a cadência do meu idioma, a cor da minha pele, a saúde dos meus pulmões. Os meus hábitos noturnos, as noites que passo em claro, os dias do ano em que calço galochas. É ela quem decide se tomo banho de chuva, ou se é mais seguro cancelar qualquer plano. Até mesmo seu lado grotesco decide por quais ruas ando.
A cidade conhece meu trajeto. Ela me vê, todos os dias, fazer o mesmo caminho aos mesmos horários. Ela sabe que atalho escolho para fugir do trânsito. (Atalho que aprendi por muito observá-la.) Quando estou atormentada por uma grande decisão a tomar, ela sabe, porque me vê descalçando os pés para pisar no mar e pensar.
De manhã cedinho, descendo a avenida, vejo sempre as mesmas cenas. Os mesmos meninos que caminham à escola e nos cruzamos frequentemente à mesma altura. O mesmo ônibus com as mesmas pessoas dentro que para sempre no mesmo sinal que eu. O mesmo cachorro saindo do prédio a passeio, todos os dias.
Além disso, a cidade está toda marcada. Nos bairros que frequento, a cada esquina, reconheço a casa de algum conhecido, ou uma esquina em que estive com meus amigos. Durante o ano, fico revendo o trajeto que fez o bloco no último carnaval. Passo, às vezes, de propósito, na frente das casas em que já morei. Num raio de 100 metros, tudo é muito marcado pela tinta da memória. Todos os bairros, ou quase todos, são um compilado de familiaridades e reminiscências. Imagens do que sempre aconteceu à exata mesma hora, e do que, um dia, foi uma surpresa.
É fácil reconhecer os turistas: eles não enxergam as familiaridades e as reminiscências. Na verdade, eles mantêm o olhar disposto a tudo porque veem coisas que nós deixamos de perceber, questionam os próprios passos e se maravilham com os horizontes. Eu posso caminhar sem prestar atenção aos meus pés, porque antecipo cada paralelepípedo. Memorizo, também, os pontos do asfalto que cedem com a chuva. Mesmo depois de tapados com mais asfalto, posso prever que voltarão a ceder com o início do inverno.
Eu e a cidade estamos impregnadas uma na outra. A cidade é o presente e o ausente. É o concreto e o invisível. É o que habito e o que me habita. A cidade sou eu, mas eu também sou ela. Temos, as duas, qualidades e defeitos. Partes bonitas onde montamos exposições, e partes feias que assustam a nós mesmas. Sabemos dos nossos segredos; eu os dela, ela os meus (sendo os meus muito mais previsíveis, por ser eu um organismo muito mais simples). Por vezes, a culpo, critico sua mania de narciso e os abismos que ela parece desenhar para si mesma. Mas, quando estou a visitar outro lugar, em qualquer conversa procuro sempre uma brecha para falar em seu nome.

Como sempre, Analice traduzindo perfeitamente alguns sentimentos e experiências 👏
Belo texto ,bem reflexivo e explesivo em relação a cidade.