Quantos “nãos” são necessários para que uma mulher possa se sentir validada, respeitada, e principalmente, segura? Quantos “nãos” precisam ser ditos para que um homem entenda que o relacionamento acabou, ou mesmo que a mulher não quer iniciar um relacionamento? Quantas vezes uma mulher precisa dizer não para que um homem pare de agredi-la com palavras, humilhações? Quantos nãos precisam ser ditos para que uma mulher se sinta valorizada em seu ambiente de trabalho, em sua rotina diária, dentro de um transporte público, na igreja, em casa?
Estamos vivenciando uma verdadeira pandemia de feminicídios (e suas respectivas tentativas), e se você ainda não percebeu esta preocupante situação, de duas, uma: Ou está vertiginosamente deslocado da realidade ou é conivente com todos os absurdos e atrocidades que estão acometendo as mulheres. E não se enganem: Este não é um problema com lateralidade política. A estruturação do machismo atravessa os posicionamentos políticos e fere igualmente as mulheres de ambos os polos partidários, ainda que um dos lados seja mais beneficiado pelo silêncio submisso de um grupo de vítimas, adestradas pelo medo e pela culpa que não lhes cabem, mas que carregam pesadamente.
A verdade é que sim, por mais incômodo que seja ler e constatar isso, e é preciso que seja incômodo, a questão é: Estão nos matando! Estão nos perseguindo após o nosso “não”. Quando decidimos perdoar, morremos. E quando decidimos seguir nossas vidas, também estão nos matando!
E não, senhores e senhoras leitores e leitoras. Não é porque escolhemos mal os nossos companheiros. Não é porque não sabemos conversar. Ou porque somos teimosas. Ou porque ousamos discordar. À propósito, qual o problema em discordar, questionar, sermos teimosas? Somos objetos inanimados que não possuem autonomia, voz, decisões? Não possuímos o direito de decisão de nossa própria existência? Não podemos mudar de ideia? Voltar atrás em uma decisão? Por qual motivo não podemos? Por que o homem é “a cabeça da relação”? E se este homem for um verdadeiro tolo, cabeça-oca, que não pensa nem em si mesmo? Devemos segui-lo cegamente, mesmo assim?
Lembremos que pessoas de caráter questionável não andam com um outdoor na testa com a frase: sou perigoso e vou fazer de sua vida um inferno!
Fico me perguntando, quantas de nós precisam apanhar, ser privada de liberdade, ser violada e morrer, para que as pessoas de modo geral entendam que, não somos nós mulheres quem devemos mudar, e aliás, já mudamos, e uma prova disso é que não estamos aceitando mais o mínimo, as migalhas afetivas de homens que despejam suas expectativas de fracasso em nós. Já não aceitamos “salvar o relacionamento” e ser o centro de terapia de um homem que não aceita que está errado. Agora, precisamos salvar a nós mesmas. Em voz alta! Sem maquiagem para esconder as manchas dos socos, empurrões, arranhões. Urgentemente! E salvo algumas que ainda acreditam que são, por algum motivo, inferiores aos homens, já não são só as mulheres quem precisam mudar!
E não se trata de querer competir com homens, ou travar uma batalha com eles. A nossa batalha é contra o machismo, que mata mulheres e homens também. Afinal de contas, o homem em sua disputa egocêntrica por uma masculinidade ideal, mergulha de cabeça em uma poça rasa de fragilidade, descontrole emocional e caos, adoecendo todos ao seu redor.
Confesso que cada vez que leio uma matéria sobre feminicídio, um pedaço de mim se esfarela. Cada vez que alguém tenta justificar uma agressão contra uma mulher – inclusive, as “justificativas” que se utilizam da fé cristã – algo dentro de meu coração se estilhaça, tal qual uma vidraça.
De jovens ao idosos, de cristão ao ateu, é preciso dar um basta nessa matança. Nós mulheres só queremos justiça, por enquanto. Seja criança, adolescente, mulher casada, colega de trabalho, freira, comerciante, mãe, jovem, seja de direita, de esquerda, ex-namorada, ex-mulher, ficante. Se dissermos não, entendam que é NÃO. O Não é uma frase completa. Sem mais. Sem “mas”. É autoexplicativo. Simples de entender.
Nos deixem viver nossas vidas. Trabalhar em paz. Andar pelas ruas em paz. Ir aos restaurantes, bares, sem julgamentos.
E vamos combinar: Todo mundo sabe a diferença entre paquera e importunação. Todos nós sabemos quando uma pessoa está a fim e quando não há mais espaço para investidas. Então? Pra quê ficar enchendo o saco? Perseguindo, assombrando, criando narrativas que fazem da mulher uma grande vilã, para assim validarem suas agressões?
E você, caro leitor. Que silencia diante de uma possível agressão que esteja acontecendo entre pessoas próximas a você: Saiba que é um cúmplice! E caso a agressão desponte para algo mais graves, não esqueça que em suas mãos também respingará o sangue da vítima.
De acordo com a Agência Brasil:
“O Brasil registrou 6.904 vítimas de casos consumados e tentados de feminicídio em 2025, o que representa um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, quando houve 5.150 vítimas. Foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, totalizando quase seis (5,89) mulheres mortas por dia no país. Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL), que traz também o perfil das vítimas e dos agressores.”
Acesso em 12 de Março de 2026.
Texto disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2026-03/numero-de-vitimas-de-feminicidio-supera-em-38-registros-oficiais ).
O seu silêncio protege o agressor.
- 197 (Disque Denúncia da Polícia Civil)
- 180 (Central de Atendimento à Mulher)
- 190 (Disque Denúncia da Polícia Militar – em casos de emergência)
