InícioCidadesÉ possível Políticas Públicas em caso de desastres naturais?

É possível Políticas Públicas em caso de desastres naturais?

O céu escurece, o cheiro de terra molhada e o som da chuva, que deveriam trazer alento e aconchego, agora ecoam como um presságio de terror em Santa Rita. Em questão de minutos, o que era um lar se transforma em um cenário de guerra contra a natureza. O desespero toma conta dos rostos de pais e mães que assistem, impotentes, à subida implacável e veloz das águas dos rios Paraíba e Levada do Rio Tibirizinho. Não são apenas notícias nos plantões de telejornais locais e nacionais do já fatídico maio de 2026, são gritos de socorro ecoando. É o som do motor de um carro — fruto de anos de suor — sendo sufocado pela lama. É o estalo de móveis se desfazendo e o patrimônio de uma vida inteira sendo tragado pela correnteza em segundos, onde só resta pegar alguns documentos, uma sacola com poucas roupas, colocar o cachorro ou o gato embaixo do braço e correr para algum lugar minimamente seguro.

Nesse rastro de destruição, onde o medo de perder os bens materiais só é superado pelo pavor de perder a própria vida, a pergunta que fica é uma ferida aberta: até quando o cidadão de Santa Rita será condenado a ver o esforço de décadas ser levado pelas águas, enquanto as soluções definitivas parecem nunca chegar? É possível aceitar que o “remediar” seja o único destino, enquanto famílias perdem o chão e o teto diante do transbordamento anunciado da negligência?

Da Reação à Resiliência: Exemplos que Funcionam

A ideia de que “contra a força da natureza não há o que fazer” é um mito que o urbanismo moderno já derrubou. Políticas públicas de combate a desastres não devem ser confundidas com ações assistencialistas de entrega de colchões e cestas básicas após a tragédia. A verdadeira política é a da resiliência.

Ao redor do mundo e do Brasil, cidades têm provado que o investimento correto salva vidas e recursos:

Reprodução feita por IA, de como ficaria a Levada do Rio Tibirizinho, no centro de Santa Rita, com seu leito canalizado e margens transformadas em parque linear com ciclovia e equipamentos:.

Como ficaria a Levada do Rio Tibirizinho, no Centro, com serviço de canalização e construção de ciclovias, parque linear e equipamentos.

O Dilema das Prioridades: O Caso dos R$ 12 Milhões

Em Santa Rita, o debate sobre a aplicação das verbas públicas ganhou um contorno ético e administrativo nas últimas semanas. De um lado, a destinação de R$ 12.000.000,00 (doze milhões de reais) para a realização de um São João de grande porte (Que é comemorado todos os anos). Do outro, uma população que, às vésperas desses eventos, vê suas casas submersas e sua dignidade ameaçada.

É inegável que festas populares são pilares da cultura nordestina, atraem turismo e movimentam a economia local, em especial um evento que já faz parte do coração de todo nordestino, como o São João, e que gera uma cadeia de produtividade, desde as costureiras que confeccionam o figurino das Quadrilhas Juninas, aos comerciantes que montam suas barracas durante a festa, além dos motoristas por aplicativo que transportam pessoas entre os municípios. No entanto, a gestão pública é, fundamentalmente, a arte de priorizar. Quando a calamidade bate à porta, o investimento em entretenimento entra em choque direto com a urgência da sobrevivência e, no caso de Santa Rita, o dinheiro destinado é tanto que poderia, tranqulamente, contemplar as duas situações, diminuindo os dias de festa e remanejando valores para essas políticas públicas emergenciais.

Como o recurso poderia ser aplicado?

Para se ter uma dimensão prática, os R$ 12 milhões investidos em eventos poderiam ser redirecionados para transformar a realidade infra estrutural do município:

Uma Questão de Escolha e Prioridades

O desastre natural é um fenômeno físico, mas a calamidade social é uma escolha política. Não se trata de ser “contra as festas”, mas de ser “a favor da vida” com a mesma intensidade financeira. Enquanto o orçamento para o palco for maior que o orçamento para o bueiro e para a contenção, enquanto remediar for melhor do que prevenir, Santa Rita continuará a celebrar suas festas com os pés na lama. A reflexão que fica para os gestores, legisladores e para a sociedade é: quanto vale o sono tranquilo de uma família em uma noite de chuva? A resposta é aguardada pela sociedade, ano após ano.

Cleyton Ferrer
Cleyton Ferrer
Bacharel em Jornalismo e Radialismo pela UFPB. Cantor. Videasta. Documentarista. Dirigiu e produziu os documentários: Santa Rita Engenho das Artes (2007); Santa Rita Preta (2007); Auto dos Orixás (2023); Juremeiras (2004); Joanna Pé de Chita (2004), onde conseguiu 3 premiações no Festival Nacional do Audiovisual Fest Aruanda (2007, 2023, 2024), dentre outros. Produz contos apócrifos sobre a cidade de Santa Rita para um blog, foi locutor nas rádios Sanhauá AM, Cabo Branco FM, e atualmente apresenta programas musicais na Rádio Tabajara FM.

1 COMENTÁRIO

  1. Excelente análise situacional da calamidade que se instalou na cidade de Santa Rita. É importante quando um filho da terra lança um olhar sobre sua cidade.
    A cidade de Santa Rita é maior do que qualquer outro evento festivo, mesmo sendo esse tradicional, mas a vida do povo está acima disso tudo!

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