InícioCulturaResenha: Dentre os Nós do existencialismo de Rayana Carvalho

Resenha: Dentre os Nós do existencialismo de Rayana Carvalho

– Por Davi da Costa Brito

PARECERES INICIAIS

Num fundo de vontade de escapar do esquecimento neste mundo essencialmente transitório, Rayana Carvalho nos presenteia com seu primeiro livro Entre o Nó e a Palavra.

Sobre o livro em si, é de leitor para leitor. Qualquer um pode escrever uma poesia em verso livre, sem métrica, rima e sílabas poéticas, mas quando feitas com sinceridade, entrega-nos uma subjetividade primorosa sem cair no que chamamos de piegas.

Cabe, ao menos, elucidar que os versos mantêm uma lógica na sua composição, como a Logopeia e a Fanopeia, presentes em ABC da Literatura, escrito por Ezra Pound (2006). Estes termos, grosso modo, significam lógica interna do texto e criação de imagens, respectivamente. Isso, per si, carrega o efeito simbólico da poesia, para além da decodificação elementar dos versos, porque a própria autora admite trabalhar com a ambiguidade.

Não é uma obra para quem trabalha com a dureza metodológica de um artigo acadêmico. Isso dificulta a leitura para quem performa as leituras em voz alta com ritmo musical das sílabas, e acaba lendo como uma prosa que, às vezes, foge da intenção do poema. As palavras não estão soltas na página a esmo, e também não é correto dizer que não há rima — que aparece vez ou outra na maior parte da obra, mas sempre na estrofe do meio, tão somente. Esta é a magia do verso livre de Carvalho. Trata-se de um ritmo psicológico: pode ser lido de forma rápida ou lenta, o efeito será o mesmo.

É, definitivamente, uma obra para suspirar, imaginar. Poderia matá-la numa tarde, mas não seria o ideal. Mesmo que as poesias sejam notoriamente curtas, com dísticos em sua maioria, nota-se que ela não dá importância essencialmente à forma, mas ao conteúdo. Estamos cientes de que, no sentido clássico, forma e conteúdo são indissociáveis, mas não precisamos nos preocupar se os versos são decassílabos ou alexandrinos. Nisto, sobretudo, reside um problema: não saber como fazer um ofício artístico priva o autor de chegar ao aclamado valor estético desejado (Schopenhauer, 2005). Nesse sentido, podemos afirmar que é, no âmbito da técnica, uma obra imatura. Todavia, ela não deixa de ser artista — como dito anteriormente, o que importa é o conteúdo.

A HEIDEGGERIANA DO AGRESTE

Rayana se preocupa com o ser. Reconhece a temporalidade e a transitoriedade da matéria orgânica no ente, e a existência faz parte de suas reflexões — mas para onde vai a sua forma de ver o ser? Talvez para canto nenhum, porque esta não é a proposta da autora: ela não busca dar soluções, mas simplesmente mostrar o que sente. Aqui, o eu lírico nos convida a observar o que ignoramos pela rotina: o tempo.

Ter noção do próprio limite neste campo terreno traz uma certa angústia, mas não é necessariamente ruim, porque isso revela que não somos autênticos na maior parte dos dias. O cotidiano, certamente, nos priva de enxergar o mundo e de compreender como podemos existir dentro dele sem fazer parte de um sistema dedicado a nos apagar — governados pelo Dasman, os outros, na acepção de Heidegger. Para ele, a poesia é a morada do ser: apenas através da arte conseguimos um vislumbre daquilo que verdadeiramente somos.

Assim, talvez seja válido afirmar que o Nó do título seja esta busca expressa pela Palavra — veículo último do eu lírico. A autora não explicita completamente suas intenções quanto à poesia, mas podemos ter certeza de que busca causar impacto, um certo incômodo capaz de nos restituir uma visão autêntica do mundo — como acontece, por exemplo, no poema da rachadura na parede. Pode-se dizer, ainda, que Rayana habita justamente neste Nó, sem que isso carregue uma imagem de prisão, embora a autoconsciência não figure entre as sensações auspiciosas de existir num mundo dado. O efêmero está para a poesia de Carvalho como a morte está para Augusto dos Anjos. Mas não nos deixemos enganar: a vida é temporária, as células morrem, e as nossas escolhas são as marcas que permanecem na vida dos outros. A autenticidade acontece em momentos específicos ao longo do percurso.

O tema central do livro não é novo, e isso não é um problema. O que importa é o que cada voz acrescenta ao percurso da fala e da escrita — e Rayana acrescenta o olhar miúdo sobre o cotidiano, a atenção às pequenas fissuras da existência, que só se revelam a quem está disposto à contemplação. Nesse sentido, trata-se de um livro que exige um leitor em estado de escuta. Não estamos aquém da poesia de Rayana porque, no fundo, já sabemos que somos seres-para-a-morte. O que ela nos oferece é a coragem de olhar para isso sem desviar os olhos.

De volta ao início, ainda há o que trabalhar na arte da composição, como a técnica, a metáfora. Mas, nesta estréia, como podemos notar, a autora tem uma grande bagagem teórica, existencial, filosófica, mas para os leitores de primeira viagem, não é necessário saber disso tudo, apenas leiam. Não estamos aquém do eu lírico de Rayana Carvalho, pois, em verdade, somos a existência manifestada no ente. Este ser, na literatura, é palpável.

Rony Nascimento
Rony Nascimento
Vice-presidente e diretor de conteúdo do Sistema em Foco de Comunicação, jornalista, fotógrafo, produtor cultural, produtor audiovisual, cantor e compositor.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui