No silêncio do ateliê, o som da plaina sobre a madeira ou o bailar da agulha cruzando o tecido costumava ser o único indicativo de produção. Para muitos artesãos de Santa Rita, a arte sempre foi uma herança pulsante, mas a gestão financeira era um labirinto sem saída. Esse cenário começou a mudar drasticamente com a descentralização dos editais culturais. O que antes era visto apenas como um “auxílio” ou “ajuda de custo”, revelou-se o capital semente necessário para transformar talentos manuais em empresas sustentáveis.
A poucos quilômetros da capital paraibana, a cidade de Santa Rita — reconhecida como um dos maiores celeiros culturais do estado — atravessa uma silenciosa, porém robusta, revolução econômica. O combustível dessa transformação não vem apenas das chaminés industriais, mas das mãos de artesãos que, através da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), estão transmutando o saber ancestral em ativos de mercado. Com um investimento estratégico e preciso, a Política Nacional de Fomento à Cultura (PNAB), destinou no último edital recursos que totalizam quase R$ 100 mil diretamente para o setor: R$ 50 mil foram reservados para artistas plásticos e escultores (premiando 10 talentos com R$ 5 mil cada), enquanto R$ 15 mil custearam um festival inédito e R$ 25 mil foram aplicados em oficinas de capacitação.
O renascimento coletivo: A AMAS e o “cantinho da terapia”
Para Vitória Apolinário, coordenadora da AMAS (Associação de Mulheres Artesãs de Santa Rita), o edital cultural não foi apenas uma transferência de renda; foi um “patrocínio” para o recomeço. Fundada em 2018 como um grupo de 20 amigas que buscavam ensinar umas às outras o que sabiam, a associação completa oito anos de resistência em julho. A trajetória da AMAS é marcada pela busca da independência financeira feminina, enfrentando a dura realidade de mulheres que, historicamente, dependiam da renda dos maridos para sobreviver.

“O Edital veio em um momento crucial. Na pandemia, precisamos fechar as portas e perdemos o lugar onde nos reuníamos para produzir e dar aulas”, relembra Vitória. O recurso permitiu que o grupo restabelecesse a continuidade dos trabalhos sociais que hoje funcionam como um equipamento de saúde pública informal em Santa Rita. O impacto é tão profundo que atravessou as paredes dos consultórios médicos locais. “Hoje, os médicos indicam a associação para mulheres com ansiedade, depressão e problemas de memória. Recebemos pacientes com indicação médica no papelzinho, e elas chegam dizendo: ‘olha o papel que o médico me mandou, eu vim para cá’. Algumas já tiveram até alta do CAPS por conta da melhoria que o artesanato trouxe”, revela a coordenadora com orgulho. Atualmente, a AMAS conta até com uma psicóloga voluntária que atende o grupo a cada 15 dias, consolidando o espaço como o “cantinho da terapia”, revela a coordenadora.

O ápice dessa nova fase foi a realização do primeiro Festival de Artesanato em praça pública da história de Santa Rita, contemplado pelo edital com R$ 15.000,00 para sua realização. Durante 12 horas ininterruptas na Praça do Chafariz, no bairro de Tibiri 2, o evento celebrou a Consciência Negra em novembro. “Foi algo inédito. As artesãs produziram peças exclusivas para o festival com o dinheiro que veio do edital. Tivemos grupos de dança, música ao vivo e premiações para as melhores criações. Ficou marcado na nossa história e na da comunidade”, destaca Vitória.
O labirinto da burocracia e o desejo de gestão
Apesar do brilho do festival, a realidade da AMAS ainda esbarra em obstáculos estruturais que desafiam a paciência de qualquer empreendedor. A associação, que ainda não possui sede própria e sobrevive com contribuições mensais de R$ 20 das sócias para cobrir aluguel, água e luz, trava uma batalha de anos contra a burocracia do CNPJ. “Faz tempo que a gente luta. Já registramos, já formamos a documentação, mas a Receita Federal alega erro de endereço ou de papelada. Acho que já voltou umas quatro vezes. Eu nunca vi uma coisa tão difícil quanto esse CNPJ”, desabafa Vitória.

Além do registro formal, a carência de conhecimento técnico em gestão é o próximo alvo da associação. Vitória é enfática ao admitir que a técnica manual já foi dominada, mas o “atendimento ao cliente” e a “precificação” ainda são mistérios. “A gente sente muita necessidade de saber o valor real que se pode cobrar em uma peça, entender quanto se gastou para não sair no prejuízo. Gostaríamos muito de parcerias para trazer esses custos de especificação para as mulheres que participam das feiras. Precisamos nos atualizar para atender bem”, pontua. É a consciência de que o talento, sozinho, não paga o aluguel da sede.
Eficiência no quintal: O salto tecnológico de Magno Monteiro
Se na AMAS o foco é o fortalecimento do grupo, na oficina de Magno Monteiro a palavra de ordem é escala e precisão. Com mais de 10 anos de estrada, Magno herdou de uma família de artistas o talento para a salvaguarda dos brinquedos tradicionais. No entanto, o mercado mudou. “Os brinquedos populares tradicionais vêm perdendo espaço para os eletrônicos e industrializados. É uma concorrência desleal para o pequeno artista”, explica Magno. Para equilibrar essa balança, ele entendeu que não bastava fazer “brinquedos de madeira”, era preciso entregar excelência.

Com o aporte de R$ 5.000,00 da PNAB, Magno realizou o que muitos microempreendedores levam anos para conseguir: um salto tecnológico e logístico. “Uma das maiores dificuldades era a aquisição de matéria-prima em escala. O recurso foi aplicado nisso e em ferramentas que me permitem acelerar o processo. O que antes eu levava o dia inteiro para produzir, hoje faço em poucas horas”, revela o artesão. Essa otimização permitiu que ele focasse no que realmente agrega valor: o design e o acabamento impecável, permitindo um preço final mais competitivo e lucrativo.
Magno hoje se define, como um empreendedor da economia criativa. Suas peças, que agora circulam com destaque no Salão do Artesanato Paraibano e na Multifeira Brasil Mostra Brasil, são a prova de que a tradição pode ser moderna. “Hoje eu uso o lucro gerado como capital de giro e investimento. Não dependo apenas de novos auxílios para reinvestir no meu negócio”, afirma, sinalizando a tão sonhada sustentabilidade financeira.

O panorama nacional: Editais como estratégia de Estado
A transformação vivenciada em Santa Rita não ocorre no vácuo. Ela faz parte de um ecossistema complexo da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB). Embora a previsão nacional seja de R$ 12 bilhões investidos até 2027, o ano de 2025 foi marcado por desafios orçamentários e cortes federais que exigiram jogo de cintura dos gestores locais. Na Paraíba, o montante de investimentos via PNAB chega a cerca de R$ 10,3 milhões, distribuídos entre diversos segmentos. Diferente de uma verba carimbada com valor único, a PNAB funciona pela descentralização: cada município define onde o “calo aperta”. Em Santa Rita, a escolha por destinar R$ 50 mil para artistas plásticos (com premiações individuais de R$ 5 mil), R$ 20 mil para o festival e R$ 25 mil para oficinas de capacitação foi um movimento estratégico para oxigenar o setor após o impacto da pandemia. Enquanto em outras cidades os recursos podem ser usados para brindes institucionais ou exposições fixas, Santa Rita optou pelo fomento direto à produção e à circulação de bens culturais.
O veredito do mercado: O futuro é gestão
Especialistas em gestão e economia criativa convergem em um ponto central: políticas públicas culturais, quando bem executadas, deixam de ser um gasto governamental para se tornarem ferramentas de justiça econômica e fixação de talentos no território. Em Santa Rita, esse fenômeno é latente. O artesanato local já não pede licença para entrar no mercado competitivo; ele chega com nota fiscal em mãos, design aprimorado, consciência social aguçada e a chancela de quem compreendeu que o futuro é, sim, feito à mão, mas precisa ser gerido com uma mente rigorosamente estratégica. O grande desafio agora é garantir que o anseio por conhecimento de gestão manifestado por Vitória e a eficiência técnica conquistada por Magno Monteiro não fiquem restritos a casos isolados de sucesso. É preciso que essa mentalidade se torne a regra, e não a exceção, dentro do ecossistema produtivo da Grande João Pessoa.
A sustentabilidade desse “celeiro cultural” paraibano depende de um acompanhamento contínuo que transforme o fomento temporário em uma política de estado permanente, capaz de oferecer não apenas o recurso para a matéria-prima, mas o suporte para que o CNPJ saia do papel e a precificação justa garanta o pão na mesa. Só assim, Santa Rita deixará de apenas “resistir” para liderar uma vanguarda onde o lucro e a tradição caminham lado a lado.

Fazer esse registro de valorização e reconhecimento, reafirma o potencial artista do município. Parabéns, Cleyton Ferrer, uma matéria ampla das conquistas e necessidades deste artistas.
gratidão ao amigo Cleyton Ferrer, por transmitir com excelência nossa história, os desafios e alegrias que nos fazem resistir a cada dia com a nossa cultura.